Um dos trechos que mais me interessam na Ética a Nicómaco é o do intervalo 1177a25-1178b35: “o justo necessitará sempre em acréscimo de outros relativamente aos quais […] possa praticar actos de justiça, o temperado para praticar actos de temperança, o corajoso para praticar actos de coragem”; “[o] generoso precisará de dinheiro com o qual possa praticar actos generosos, e o justo para retribuir os favores recebidos […], e o corajoso precisa de força e poder, […], e o temperado precisa do momento da tentação”; “para levar à prática acções excelentes são necessários muitos (complementos exteriores) e quanto maiores forem as acções em grandeza e esplendor, serão precisos mais ainda [num maior grau e em maior número]. Mas quem tem como actividade a contemplação não tem necessidade de nenhum complemento deste género para [o accionamento e] a produção da sua actividade”; “se nós retirarmos a um ser vivo a possibilidade de agir e mais ainda de produzir, o que é que lhe resta senão a actividade da contemplação?”. Aristóteles parece procurar aqui um reduto interno de sentido que não esteja dependente do externo. Por reduto interno de sentido quero dizer que, se o fim do humano é a felicidade, a contemplação parece oferecer um caminho para a felicidade que está, tanto quanto é possível ao humano, independente do externo: “Aqueles em quem existir maior capacidade de contemplação, tanto mais felizes serão, e não de uma forma acidental, mas pela própria natureza constitutiva da situação contemplativa”. Naturalmente, Aristóteles reconhece que até “quem se dedica à contemplação, sendo Humano, há-de necessitar também de circunstâncias favoráveis” – mas, de qualquer modo, parece haver aqui uma tentativa de procurar o caminho para a felicidade que menos estiver exposto às vicissitudes externas. Julgo que este esforço se verá na filosofia helénica em geral. Os estóicos, por exemplo, perceberam que a dependência relativamente ao que é fortuito só poderia ser evitada transferindo o fim da acção para a relação do sujeito consigo mesmo. Se o sujeito atinge o alvo externo – para usar a metáfora do arqueiro –, tanto melhor, mas deve ter como fim último da acção visar o alvo com cuidado. Ainda em Kierkegaard podemos ler “taking aim is a more reliable testimony to the marksman’s goal than the on-target shot, because a shot can also hit the target accidentally, and the marksman may also be guiltless if the gun failed to go off, but taking aim allows for no irregularities” (SKS 8: 239). E é Famoso o passo onde Kant nos diz que “A boa vontade não é boa por aquilo que promove ou realiza, pela aptidão para alcançar qualquer finalidade proposta, mas tão-somente pelo querer […] mesmo que por um desfavor especial do destino […] nada pudesse alcançar” (Ak. 4: 394).
Ou seja, é certo que, para Aristóteles, o fim do humano tem um carácter natural, fixado à partida, desde a origem – mas, por outro lado, parece haver aqui a suspeita de que devemos visar um alvo que dependa de nós. Claro que, como, para Aristóteles, não escolhemos o fim mas apenas os meios, não nos diz que devemos procurar um fim que dependa de nós, mas sim um caminho, um meio de o atingir, que não esteja exposto à sorte/azar (tanto quanto possível).