Deixo possíveis ligações a explorar entre filmes de que gosto e a temática (em sentido lato) da nossa formação.
De Bergman, além do Sétimo Selo, já presente noutra entrada, recomendaria o Morangos Silvestres (1957): um velho professor que revê a sua vida num único dia, a sua memória confronta-o com o que viveu e não viveu. Penso que nos coloca perante uma das razões que pode tornar a morte (e as ideias que vamos fazendo dela) tão angustiante: a sensação de que se desperdiçou, em maior ou menor medida, a vida.
De Tarkovsky, nunca é demais.
O Sacrifício (1986). Na minha leitura, sobre a coragem e a responsabilidade de se tornar sagrada a existência (e isto, como dizia Manuel Gusmão sobre a Alegria - contra todas as evidências), o que pode significar também um gesto de renúncia (como vemos no filme). Parece-me que O Sacrifício dialogaria bem com obras como O Mundo como Vontade e Representação, especialmente o Livro IV; ou mesmo com Simone Weil e a sua ideia de decreação, um retirar-se da existência para deixar Deus entrar, que encontramos no livro A Gravidade e a Graça.
O Espelho (1975): de novo a questão da memória, da culpa, da finitude do tempo e de uma espécie de luto metafísico que tudo isto suscita. Na senda da questão do luto, em Solaris (1972), levanta-se uma questão dura: quando amamos alguém que morreu e recusamos soltá-lo — a quem amamos? À pessoa real que existiu? Ou à imagem que construímos dela, que o luto foi modelando ao longo do tempo? (aqui podemos relacionar com conceitos como o "simulacro")
Também sobre o problema do luto, e da sobrevivência e criação de sentido no luto, recomendo toda a obra da grande Chantal Akerman, mas especialmente o último, No Home Movie (2015) - sobre o luto pela sua mãe, ao qual Akerman infelizmente não sobreviveu muito tempo. Aqui o diálogo com a noção de rosto (visage) de Lévinas é muito claro: Akerman filma o rosto da mãe como Lévinas descreve o rosto do outro: como aquilo que me constitui eticamente e que, ao desaparecer, me destitui.
Ou num registo mais lúdico, A Ghost Story (David Lowery, 2017): sobre o luto visto pelo lado do morto (um fantasma).
Num sentido mais cósmico, em que o nosso fim se confunde com o fim de tudo, aparecendo, ambos os fins, não apenas como problemas metafísicos, mas também estéticos - dois filmes: Melancholia (Lars von Trier, 2011) e A Árvore da Vida (Terrence Malick, 2011). Neste último é também de luto que se trata. Tanto num como noutro, a dimensão formal do filme (planos, imagens, etc) são magistralmente harmonizadas com os conteúdos. Penso que este último dialogaria bem com Espinosa, devido ao modo como a natureza é aí apresentada.
Um tópico que esteve sempre presente na formação, e que me parece essencial para pensar pensarmos a morte enquanto fenómeno cujo sentido emerge da dimensão social, é o do ritual. Quando me lembrei deste tópico, pensei em dois filmes: Departures (Yojiro Takita, 2008), que talvez pudesse dialogar com Heidegger, e o magistral Ordet (Dryer, 1955), que certamente dialoga com a noção de salto de fé em Kierkegaard.
De forma mais indireta, mas potencialmente muito produtiva, diria estarem os filmes de Chris Marker, La Jetée (1962) e Sans Soleil (1983). Aqui o diálogo poder-se-ia fazer, por exemplo, com Wittgenstein e a sua ideia de que a morte não é um evento da vida, que deverá, parece-me, ser complementada com uma outra, a da proposição 6.522 que afirma: "Há, com efeito, o inexprimível. Ele mostra-se, é o Místico. Julgo que Marker é dos realizadores que melhor faz isso usando a imagem.
Por fim, lembrei-me de Kiarostami e especialmente do filme O Sabor da Cereja (1997), que trata de forma muito original uma forma muito específica de morte, talvez a mais desafiante de entender filosoficamente, que é o suicídio. O facto de não tomar qualquer tipo de decisão sobre o tema, e de deixar o problema em aberto, torna este filme um bom princípio de conversa. A problemática do sentido e do absurdo são também aqui pensadas sob o pano de fundo do desejo e da possibilidade do suicídio.
Ficam algumas referências e possíveis relações.
Cumprimentos,
Tiago Ribeiro.
Deixo possíveis ligações a explorar entre filmes que gosto e a temática (em sentido lato) da nossa formação.
De Bergman, além do Sétimo Selo, já presente noutra entrada, recomendaria o Morangos Silvestres (1957): um velho professor que revê a sua vida num único dia, a sua memória confronta-o com o que viveu e não viveu. Penso que nos coloca perante uma das razões que pode tornar a morte (e as ideias que vamos fazendo dela) tão angustiante: a sensação de que se desperdiçou, em maior ou menor medida, a vida.
De Tarkovsky, nunca é demais. O Sacrifício (1986). Na minha leitura, sobre a coragem e a responsabilidade de se tornar sagrada a existência (e isto, como dizia Manuel Gusmão sobre a Alegria - contra todas as evidências). O Espelho (1975): de novo a questão da memória, da culpa, da finitude do tempo e de uma espécie de luto metafísico que tudo isto suscita. Na senda da questão do luto, em Solaris (1972), levanta-se uma questão dura: quando amamos alguém que morreu e recusamos soltá-lo — a quem amamos? À pessoa real que existiu? Ou à imagem que construímos dela, que o luto foi modelando ao longo do tempo? (aqui podemos relacionar com conceitos como o "simulacro")
Também sobre a questão do luto e da sobrevivência no luto, a trilogia de Kieslowski, A Três Cores.
Ou num registo menos pesado, A Ghost Story (David Lowery, 2017): sobre o luto visto pelo lado do morto (um fantasma).
Num sentido mais cósmico, em que o nosso fim se confunde com o fim de tudo, aparecendo, ambos os fins, não apenas como problemas metafísicos, mas também estéticos - dois filmes: Melancholia (Lars von Trier, 2011) e A Árvore da Vida (Terrence Malick, 2011). Neste último é também de luto que se trata. Tanto num como noutro, a dimensão formal do filme (planos, imagens, etc) são magistralmente harmonizadas com os conteúdos.