Na minha opinião a IA pode ser útil no ensino da Filosofia e, consequentemente, na aprendizagem da mesma, mas também me gera alguma hesitação.
VANTAGENS:
Por um lado, o professor de Filosofia é quase obrigado muitas vezes a cair num paradigma expositivo, de forma a tornar claros determinados conceitos filosóficos que, em virtude do seu caracter abstrato, são muitas vezes dificeis de apreender por parte dos alunos. Neste caso a inteligência artificial, ao dar-nos a possibilidade de criar instrumentos dinâmicos, visualmente atrativos, esquemáticos, multimédia em diversos suportes, será um auxílio valioso para o professor e para os alunos.
Por outro lado, a IA pode permitir algo que se vê pouco na disciplina de filosofia, que são atividades mais dinâmicas e num registo de metodologias mais ativas. Com comando adequados e objetivos bem estabelecidos a IA pode sugerir-me em segundos algo que, certamente, eu demoraria muito mais tempo a projetar e a operacionalizar. Dou este exemplo:
PROMPT:
sou professor de filosofia de 10 e 11 ano. No estudo da filosofia da ciência coloca-se o problema da demarcação e do método. Peço se podes dar uma sugestão de uma atividade exequível em sala de aula que me permita de um modo criativo e dinâmico introduzir o problema que referi.
RESULTADO:
Atividade: “Ciência ou não ciência?”
🎯 Objetivo
Levar os alunos a perceber:
- a dificuldade em distinguir ciência de pseudociência (problema da demarcação)
- a importância do método científico (testabilidade, falsificabilidade, etc.)
🧠 Etapas da atividade
1. Apresentação de “teorias” (10 min)
Divide a turma em pequenos grupos e entrega a cada grupo uma “teoria” diferente. Algumas devem ser científicas e outras pseudocientíficas.
Exemplos:
- “A água ferve a 100ºC ao nível do mar.”
- “A posição dos astros influencia a personalidade.” (astrologia)
- “Vacinas causam doenças graves ocultadas pelos governos.”
- “Objetos mais pesados caem mais depressa do que os leves.”
- “Cristais energéticos curam doenças.”
2. Missão dos grupos (15–20 min)
Cada grupo deve discutir:
- Esta teoria é científica? Porquê?
- Como poderíamos testá-la?
- É possível prová-la falsa?
- Que tipo de evidências seriam necessárias?
Dá-lhes um pequeno guião com perguntas como:
- Pode ser testada experimentalmente?
- Faz previsões claras?
- Pode ser refutada?
3. Apresentação e debate (15 min)
Cada grupo apresenta a sua conclusão.
Aqui surge naturalmente o conflito:
- Alguns vão defender astrologia ou teorias conspirativas
- Outros vão exigir provas
👉 Este momento é crucial para gerar o “problema filosófico”.
4. Introdução explícita do problema (10 min)
Após o debate, sistematiza:
- Nem todas as teorias são igualmente científicas
- Surge o problema da demarcação: o que distingue ciência de não-ciência?
Aqui podes introduzir:
- Karl Popper → falsificabilidade
- Thomas Kuhn → paradigmas e ciência normal
- Paul Feyerabend → crítica ao método único
5. Fecho criativo (opcional)
Pede aos alunos:
- inventarem uma teoria absurda
- e tentarem “disfarçá-la” de científica
Os outros grupos terão de desmontá-la.
💡 Porquê esta atividade funciona bem?
- Parte de intuições dos alunos (muitos já ouviram pseudociências)
- Cria conflito cognitivo (não há respostas óbvias)
- Introduz naturalmente conceitos abstratos
- Desenvolve pensamento crítico
DESVANTAGEM
A desvantagem que reconheco no uso de IA diz respeito sobretudo ao meu próprio desenvolvimento criativo e didático, pois se há uma ferramenta que elabora de forma espontânea o que eu preciso, acabarei decerto por cair numa espécie de facilitismo que levará a uma perda de faculdades que poderiam fazer de mim um professor diferenciado.
