Memórias de Kahramanmaraş: A Viagem que Derrubou os Nossos Muros…
Até àquele ano de 2012, eu já tinha coordenado vários projetos de intercâmbio na Escola Profissional de Ourém. Cada um tinha os seus desafios, mas nenhum me preparou para o que seria o mais difícil, complexo e, ironicamente, o mais marcante de todos os que organizei. O destino era Kahramanmaraş, no interior da Turquia. O plano? Passar 13 dias num país distante, com uma cultura profundamente diferente da nossa pequena cidade de Ourém, alojando os nossos alunos em casas de famílias locais.
A adesão inicial foi um autêntico teste à minha persistência. Esbarrei num muro de ceticismo e preconceito. Os pais e os próprios alunos temiam a cultura muçulmana, desconfiavam de como seriam recebidos e assustavam-se com o choque da língua, dos costumes e da alimentação. Foram precisas inúmeras reuniões, muita persuasão e uma maratona de esclarecimentos para vencer os medos e, finalmente, conseguir formar o grupo.
Quando aterrámos, a estranheza inicial era palpável, mas a Turquia encarregou-se de a desarmar de imediato. Fomos recebidos com uma hospitalidade avassaladora e festas de boas-vindas repletas de danças folclóricas, comidas e discursos. Os 13 dias seguintes foram de uma intensidade impossível de esquecer. Cruzámo-nos com realidades duras ao visitarmos campos de refugiados, e mergulhámos na espiritualidade local ao visitar mesquitas — onde as nossas alunas se cobriram com o véu e todos tirámos os sapatos em sinal de respeito —, sem nunca deixarmos de visitar também igrejas católicas e museus locais, e locais historicamente importantes para a história do país.
A magia da interculturalidade aconteceu nos momentos mais simples. Lembro-me bem das viagens de autocarro: começámos tímidos, mas a dada altura os alunos portugueses cantavam canções nossas e, logo a seguir, os turcos respondiam com músicas deles. A barreira da língua desfez-se ali. Os aplausos e as gargalhadas tornaram-se a nossa linguagem comum.
É verdade que, ao início, os nossos jovens estranharam a alimentação, as casas, os hábitos, mas a humildade e o desejo sincero de compreender e aceitar falaram mais alto. Em toda a minha carreira a organizar intercâmbios, esta foi a única vez em que a minha equipa e eu fomos convidados para jantar a casa do diretor da escola e de vários professores. Nessas casas, vivemos choques culturais profundos: estranhámos ver que as esposas ficavam na cozinha e não se juntavam à mesa connosco. Contudo, ali aprendemos a não julgar. Percebemos que cada um interpreta e vive a sua religião à sua maneira; o que para nós era uma exclusão, para aquelas mulheres era um prazer em bem receber. Aquelas famílias, em casas muitas vezes humildes, trataram os meus alunos como autênticos reis, dando o que de melhor tinham para oferecer.
A hora da partida foi dilacerante. As despedidas fizeram-se entre abraços apertados e lágrimas nos olhos de alunos, mas também dos pais de acolhimento. Sabíamos que tínhamos vivido algo único. No ano seguinte, retribuímos a visita e recebemo-los em Ourém. Demos o nosso melhor, mas guardo em mim a certeza de que nunca conseguiremos ser tão exímios na arte de acolher como os turcos foram connosco.
Os contactos que criámos resistiram ao tempo e à distância. Continuámos a falar ao longo dos anos até que, lamentavelmente, em fevereiro de 2023, a cidade de Kahramanmaraş foi o epicentro de dois sismos devastadores. O meu coração apertou-se. Trocámos dezenas de mensagens angustiadas para saber quem estava a salvo. Foi com uma dor imensa que recebi a notícia de que aquele diretor de escola, que nos abrira as portas da sua própria casa com tanta generosidade, tinha falecido na tragédia.
Este relato é, por isso, uma homenagem a ele e a todas as famílias que nos acolheram. Este projeto provou-me que a multiculturalidade nas escolas não se faz nos livros, faz-se na pele, no confronto com o que é diferente e na descoberta de que, no fundo, a nossa humanidade é exatamente a mesma.