Por entre linhas, ideias e a pergunta: “Que tipo de Ser é o Nada?”, interrogo-me se não estaremos perante um ser que não se deixa apreender como algo estanque, mas que se anuncia muito ao de leve, pousando como o momento de uma partícula capaz de uma subtil e firme inflexão. Acontece nos aparentes intervalos, em pausas que fluem nem se sabe bem como, em espaços de suspensão regeneradora, em silêncios quase calorosos e na respiração entre um gesto e outro.
Pergunto-me se alguma nuance deste Ser Nada não habitará precisamente entre os fios quase impercetíveis que nos ligam, ou no silêncio que vive entre as palavras, ou ainda naquele instante de respiração capaz de sossegar. Entre os muitos modos de ser nada, talvez existam alguns aparentes vazios que não são ausência, mas condição de encontro, escuta e composição. Como na linha, onde nem tudo acontece no traço visível, ou na música, quando um eco ressoa e um êxtase parece acontecer precisamente no ínfimo ponto alongado de uma suspensão no ar, também a vida do nada se poderá tecer nesses espaços discretos que sustentam a relação com o mundo.
E se aquilo a que por vezes chamamos nada for, afinal, algo precioso para onde olhar e um lugar onde cresce o que precisa de continuar? Talvez caiba numa linha mais ou menos discreta, pela qual o mundo se entretece muito para além do nosso horizonte. Talvez pouse entre espaços plenos de folhas vivas e arejadas, não como ausência, mas como advir. E se o que mais tememos não couber nem na morte nem no nada, mas antes na desnutrição das linhas que nos fazem humanos?