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FÓRUM

A Cidadania na Escola: Um Caminho ainda por Construir

A Cidadania na Escola: Um Caminho ainda por Construir

por Elisabete Maria Martins Silva Conceição - Número de respostas: 0

 Sabemos que o Ministério da Educação apresenta a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania como uma forma de trabalhar com os alunos temáticas e valores, tais como a democracia, a participação na comunidade educativa e na sociedade, os Direitos Humanos, a igualdade, a sustentabilidade e o pensamento crítico, entre outros. No entanto, na prática diária, sabemos que existem várias dificuldades que tornam a sua aplicação mais complicada no dia a dia das escolas.

No meu entender, um dos principais problemas está na forma como a Educação para a Cidadania é vista nas escolas. Embora seja considerada essencial para a formação dos alunos, muitas vezes continua a ser tratada como uma área curricular menos importante, sobretudo quando comparada com disciplinas sujeitas a Exames Nacionais. Por esse motivo, em alguns estabelecimentos de ensino, tenho constatado que a cidadania acaba por ser trabalhada de forma mais superficial, apenas através de atividades pontuais ou projetos feitos para cumprir planificação ou calendário, sem estar realmente integrada no dia a dia da escola.

Outro entrave importante que tenho observado é a falta de formação específica dos professores nesta área. Muitos docentes sabem que a Educação para a Cidadania é fundamental, mas sentem alguma dificuldade em abordar temas mais sensíveis e complexos, como a igualdade de género, a sexualidade, o racismo, o multiculturalismo, os direitos humanos ou a participação na vida política. Como nem sempre existe formação adequada e contínua, alguns professores (incluo-me nesse grupo) acabam por tratar estes temas de forma mais teórica ou pouco aprofundada, o que pode limitar o desenvolvimento do pensamento crítico dos alunos.

Por outro lado, também estou consciente de que existe uma dificuldade relacionada com o próprio currículo escolar. Os programas são muito extensos e a pressão para cumprir metas e obter bons resultados académicos faz com que a Educação para a Cidadania fique muitas vezes em segundo plano. Além disso, ao longo da minha carreira docente – em diversos estabelecimentos de ensino - tenho verificado que muitas escolas evidenciam dificuldades em organizar projetos de forma articulada com as várias disciplinas e em criar tempo para atividades mais práticas, tais como debates, colóquios, pequenas entrevistas, exposições, voluntariado e participação visível na comunidade. Por isso, a cidadania acaba por ser “trabalhada” de forma muito teórica, ficando afastada da realidade dos alunos e tornando-os agentes apáticos no seu processo de aprendizagem.

 

Constato que a implementação da Educação para a Cidadania também enfrenta algumas resistências em termos sociais e ideológicos, na medida em que existem temas que geram opiniões muito diferentes no seio das famílias, das escolas e da sociedade. No meu estabelecimento de ensino, por exemplo, alguns Encarregados de Educação defendem que certos assuntos devem ser tratados apenas em casa e não na escola, chegando mesmo a considerar que existe alguma influência por parte dos professores, no que se refere à abordagem a algumas temáticas mais sensíveis. Estas situações geram desconforto na prática docente, fazendo com que alguns professores optem por uma abordagem mais ligeira ou, por vezes, até evitam tocar no assunto.

Salientaria outro entrave que é a dificuldade em passar da teoria para a prática. Muitas escolas falam em inclusão, participação e democracia, mas na realidade continuam a funcionar de forma muito hierárquica, onde os alunos têm pouca ou nenhuma voz nas decisões da escola. Às vezes existe mesmo uma diferença entre o que se diz sobre cidadania e o que os alunos vivem no dia a dia da escola. Na verdade, considero que ensinar os alunos a participar de forma democrática implica criar espaços reais onde os eles possam ser ouvidos, onde possam conversar e participar nas estruturas e dinâmicas da escola. O problema é que nem sempre isso acontece.

Por outro lado, também devemos ter em conta as desigualdades sociais que têm um grande impacto. Por exemplo, verifico que alunos oriundos de contextos mais desfavorecidos podem ter menos oportunidades de participar em atividades culturais e cívicas e. muitas vezes, são sujeitos a situações de exclusão, discriminação ou falta de apoio dos pais. Nesta área, a escola, por si só, nem sempre consegue colmatar estas diferenças, o que acaba por limitar a abrangência da Educação para a Cidadania para todos.

Em conclusão, os entraves à operacionalização da Estratégia de Educação para a Cidadania são o resultado de fatores pedagógicos, culturais e sociais. Com efeito, a falta de valorização do trabalho dos professores, a insuficiente formação em determinadas áreas, a pressão da planificação, as barreiras culturais e as desigualdades sociais dificultam a sua implementação. Apesar disso, continuo a acreditar que a cidadania representa uma dimensão indispensável da educação, exigindo um compromisso coletivo das escolas, um maior envolvimento das famílias, do ministério e da sociedade.