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FÓRUM

Entraves à operacionalização da Estratégia Nacional de Cidadania

Entraves à operacionalização da Estratégia Nacional de Cidadania

por Susana Trindade - Número de respostas: 0


A Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (ENEC) representa um avanço significativo na afirmação da cidadania como dimensão transversal e estruturante do currículo. Contudo, a sua efetiva operacionalização nas escolas tem-se deparado com obstáculos que importa identificar e discutir honestamente.

A formação docente é, provavelmente, o entrave mais estrutural. Na minha escola, a Escola Secundária do Monte da Caparica, como em tantas outras escolas, há professores que assumem a lecionação de Cidadania e Desenvolvimento sem formação específica na área, o que gera insegurança pedagógica e, por vezes, resistência. A cidadania exige competências relacionais, metodologias participativas e capacidade de facilitar o diálogo sobre temas sensíveis — competências que não se adquirem espontaneamente nem se improvisam.

A gestão da diversidade cultural e linguística representa um desafio particular na nossa escola, onde convivem alunos de diferentes nacionalidades e contextos socioeconómicos. Esta realidade é simultaneamente uma enorme riqueza e um entrave quando as estratégias pedagógicas não estão preparadas para acolher essa heterogeneidade. Enquanto professora de Português, sinto isso de forma muito concreta: a língua é simultaneamente instrumento de comunicação, veículo de cultura e condição de participação cívica. Alunos que chegam com outra língua materna enfrentam uma barreira adicional não apenas no acesso aos conteúdos, mas à própria capacidade de se expressarem, de argumentarem e de se reconhecerem como sujeitos de direitos e deveres no contexto português. Trabalhar a cidadania através do Português é, por isso, um ato simultaneamente linguístico, pedagógico e profundamente político.

A lógica disciplinar ainda dominante constitui outro obstáculo real. A ENEC pressupõe uma abordagem transversal e interdisciplinar, mas a cultura escolar continua fortemente organizada em torno de disciplinas estanques. No caso do Português, a pressão do exame nacional é imensa e condiciona fortemente as escolhas pedagógicas — há pouco espaço para explorar textos, debates ou projetos que sirvam a formação cidadã sem que isso seja visto como "desvio" ao programa.

A sobrecarga curricular e burocrática dos professores deixa pouco espaço para a reflexão e a inovação pedagógica que a educação para a cidadania verdadeiramente exige. A cidadania não se "dá" como se transmite conteúdo — implica tempo, escuta ativa e metodologias participativas que requerem preparação e disponibilidade real.

Por fim, há um entrave mais profundo e mais difícil de nomear: a resistência cultural à ideia de que a escola deve assumir explicitamente a formação de cidadãos críticos e participativos. Numa comunidade escolar tão diversa como a do Monte da Caparica, isso pode significar famílias com referências educativas muito distintas das portuguesas, ou a dificuldade em construir uma visão partilhada de cidadania que seja simultaneamente universal e respeitadora das diferenças identitárias de cada aluno.

Operacionalizar a ENEC exige, portanto, muito mais do que vontade política — requer formação contínua, tempo institucional, liderança pedagógica e uma mudança cultural que reconheça a cidadania como condição indispensável de uma escola verdadeiramente democrática e inclusiva. E que reconheça também que disciplinas como o Português têm um papel insubstituível nessa construção.