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Aristóteles perante a polarização política

Aristóteles perante a polarização política

por Maria do Céu Machado da Silva e Costa - Número de respostas: 3

Numa vida política cada vez mais marcada pela polarização, pela radicalização do discurso e pela transformação do adversário em inimigo, que lugar podem ainda ocupar as virtudes aristotélicas da prudência, da justiça e da moderação?

Continua a prudência (phronesis) a ser uma virtude política possível ou tornou-se uma desvantagem para quem exerce o poder?

Ser moderado significa procurar sempre o compromisso? Ou a prudência pode exigir, perante a injustiça, uma posição firme e sem compromisso?

Doze Homens em Fúria (12 Angry Men) - Sugiro este filme, já um clássico, ajudar os alunos a compreender o fenómeno da polarização de um grupo e a refletir sobre a importância da deliberação racional, da prudência e da capacidade de escutar o outro na tomada de decisões. O confronto entre preconceitos, emoções e argumentos permite ainda pensar, a partir da ética aristotélica, de que modo a "phronesis"  pode orientar o juízo perante situações concretas e contribuir para uma decisão mais justa.

Em resposta a 'Maria do Céu Machado da Silva e Costa'

Re: Aristóteles perante a polarização política

por Maria do Céu Machado da Silva e Costa -
Talvez um dos contributos mais atuais de Aristóteles para pensarmos a polarização política seja precisamente recordar-nos que a moderação não significa neutralidade nem equidistância entre posições. A justa medida não é um ponto médio matemático: exige prudência, capacidade de julgar as circunstâncias e de reconhecer aquilo que é justo em cada situação concreta. Numa sociedade polarizada, talvez o verdadeiro desafio seja conseguir defender firmemente uma posição sem deixar de reconhecer no outro um interlocutor com quem ainda é possível deliberar. Como recuperar as condições que tornam possível a deliberação?
Em resposta a 'Maria do Céu Machado da Silva e Costa'

Re: Aristóteles perante a polarização política

por Artur Ricardo Lopes de Sousa Dias -
Infelizmente, na atualidade, em muitas situações, a política deixou de ter em vista o bem da comunidade e transformou-se numa forma de marketing que tende a excluir os cidadãos das decisões verdadeiramente importantes que lhes dizem diretamente respeito.
Neste sentido, penso que as virtudes aristotélicas e sua respetiva aplicação pelos governantes pode contribuir, sem dúvida, para uma forma de fazer política renovadora do bem-estar da comunidade.
Em resposta a 'Maria do Céu Machado da Silva e Costa'

Re: Aristóteles perante a polarização política

por Maria Madalena Silva Neto -
Aristóteles não nos ensina a moderação enquanto neutralidade ou equidistância. A justa medida exige "phronesis", isto é, a capacidade de discernir, em cada situação concreta, o que é justo e adequado. Numa sociedade polarizada, o desafio não será, por isso, encontrar um ponto intermédio, mas "sustentar convicções sem transformar o outro num inimigo".
É neste ponto que o diálogo com Espinosa se torna particularmente profícuo. Se a "phronesis" aristotélica exige deliberar racionalmente, Espinosa ajuda-nos a compreender como os afetos — medo, indignação, ressentimento ou pertença — podem condicionar o nosso julgamento e dificultar o diálogo. A deliberação pressupõe, assim, não apenas argumentos, mas também a capacidade de não nos deixarmos dominar pelos afetos.
Emerge desta visão uma responsabilidade essencial para o professor: ensinar a discordar, argumentar e escutar sem anular o outro. Recuperar a deliberação poderá significar recuperar a capacidade de reconhecer no outro não um adversário a eliminar, mas um interlocutor com quem, apesar das diferenças, ainda é possível construir um espaço comum.