Este ano letivo tive uma turma de 10º ano, onde metade dos alunos eram provenientes de outros países. Ao longo do ano foram chegando alunos novos, uns em janeiro e outros chegaram mesmo em abril.
Cada novo aluno foi um desafio. A maioria dos alunos era brasileira, depois tinha uma aluna angolana e um aluno ucraniano.
Para mim foi uma novidade ter alunos brasileiros que não entendiam aquilo que eu dizia. A ajuda dos alunos brasileiros que já estavam há mais tempo no nosso país foi preciosa, pois iam traduzindo o que eu ensinava para os alunos recém chegados.
Foi necessário fazer a gestão de alguns conflitos em sala de aula para conciliar os interesses de todos, pois algumas vezes os alunos portugueses demonstravam alguma antipatia face aos estrangeiros. Queriam aprender mais depressa e consideravam que o ritmo da aprendizagem era mais vagaroso por causa deles.
Foi preciso treinar a empatia e o respeito pelo outro para podermos funcionar como turma. Isto só aconteceu em meados do segundo período quando a matéria de Filosofia abordou a questão da interculturalidade. Alguns alunos contaram as suas experiências no seu país de origem: o facto de haver todos os dias recolher obrigatório, pois era demasiado perigoso andar na rua à noite e poder ser surpreendido com uma bala perdida; o facto de serem 40 alunos numa turma, onde os professores debitavam matéria e pouca atenção tinham aos alunos; o facto de não terem assistência médica e de terem visto familiares próximos morrer por questões de saúde, facilmente controláveis com medicação a que não tinham acesso como é o caso da Diabetes.
Só depois de ouvirem estas experiências é que começaram a ser mais simpáticos e fizeram o exercício de se colocarem no lugar do outro.
Também por esta altura o meu aluno Oleh, ucraniano, que até aí vinha às aulas, sentava-se no fundo da sala e pousava a cabeça para dormir (postura que adotava em todas as disciplinas) despertou. Não quis partilhar experiências da sua vida privada, mas começou a esforçar-se por participar nos trabalhos da aula. Às vezes executava tarefas com recurso ao seu telemóvel e ao Google Tradutor; outras vezes trabalhava a pares com alunos que dominavam o inglês.
No fim do ano fez um ensaio filosófico escrito em português acerca do problema da pobreza e se seria fácil ou não erradicá-la. Gostou de refletir sobre os argumentos deste problema e conseguiu através de um vocabulário muito reduzido transmitir as suas ideias.
Tive pena de o ano letivo ter acabado, pois agora é que o Oleh estava a mostrar sinais de integração. O Oleh reprovou, penso que irá frequentar no próximo ano um Curso Profissional, mas o mais importante para mim foi a conquista do interesse do aluno, pois até aí esteve sempre alheado e revoltado por ter deixado todos os seus amigos e restantes familiares na Ucrânia e não poder estar lá para os defender.