Descrição de uma situação vivenciada que evidencie impacto ao nível da Interculturalidade na Educação – exemplo de caso de alunos/as migrantes.
No início do ano letivo, foi integrada na turma, uma aluna ucraniana de 10 anos, que tinha chegado recentemente a Portugal com a família próxima (mãe, pai e irmã mais velha), devido ao conflito armado no seu país. A aluna não dominava a língua portuguesa, comunicando apenas em ucraniano e com algumas palavras em inglês. Nos primeiros dias revelou-se muito reservada, evitava participar nas atividades de grupo e demonstrava alguma ansiedade sempre que lhe eram dirigidas perguntas em português.
Perante esta situação, foi necessário adaptar estratégias pedagógicas para facilitar a sua integração. Inicialmente, recorreram-se a imagens, gestos, recursos digitais de tradução e materiais visuais para apoiar a compreensão das tarefas. Paralelamente, foi criado um sistema de tutoria entre pares, em que uma colega da turma a acompanhava nas rotinas diárias, ajudando-a a compreender instruções e a sentir-se integrada no grupo.
A interculturalidade foi também promovida através da valorização da identidade da aluna. Numa atividade sobre os países de origem das famílias, foi convidada a apresentar algumas tradições da Ucrânia, fotografias da sua cidade, palavras na sua língua materna e uma canção tradicional. Os restantes alunos mostraram grande curiosidade e interesse, colocando questões e estabelecendo comparações com a cultura portuguesa. Esta partilha contribuiu para criar um ambiente de respeito, empatia e valorização da diversidade cultural.
Ao longo dos meses, verificou-se uma evolução significativa. A aluna adquiriu progressivamente competências em português, começou a participar com maior confiança nas atividades letivas e estabeleceu relações de amizade com os colegas. Simultaneamente, a turma desenvolveu atitudes mais inclusivas, aprendendo a comunicar de diferentes formas e a reconhecer que as diferenças culturais representam uma oportunidade de aprendizagem.
Análise do caso à luz dos desafios e dos benefícios da diversidade cultural para a aprendizagem
Este caso evidenciou vários desafios associados à educação em contextos multiculturais.
O primeiro prendeu-se com a barreira linguística, que dificultou a comunicação, a participação nas atividades e o sucesso escolar dos alunos migrantes. Outro desafio relacionou-se com a adaptação emocional da criança, que vivenciou uma mudança abrupta de país, de língua, de escola e de contexto social, exigindo um acompanhamento atento por parte dos professores e da comunidade educativa.
Acresceu ainda a necessidade de a docente diferenciar as estratégias de ensino, adequando metodologias, materiais e formas de avaliação às necessidades específicas do aluno, sem comprometer a sua inclusão no grupo-turma.
Apesar destes desafios, a diversidade cultural revelou-se uma importante fonte de enriquecimento para toda a comunidade educativa. A presença desta aluna permitiu desenvolver competências interculturais nos restantes alunos, promovendo valores como o respeito pela diferença, a empatia, a solidariedade e a cidadania global. O contacto com outra cultura despertou curiosidade, combateu estereótipos e favoreceu uma visão mais aberta do mundo.
Do ponto de vista pedagógico, a utilização de metodologias inclusivas, do trabalho colaborativo e da aprendizagem entre pares beneficiou não apenas a aluna migrante, mas toda a turma, tornando o processo de ensino-aprendizagem mais participativo e significativo.
Em conclusão, ser professora na interculturalidade implica reconhecer a diversidade como um recurso educativo e não como um obstáculo. O papel dos docentes consiste em criar ambientes de aprendizagem inclusivos, onde todos os alunos se sintam valorizados, respeitados e capazes de aprender. A integração desta aluna ucraniana, a Oleksandra, demonstrou que, quando existem práticas pedagógicas inclusivas e uma atitude de abertura à diversidade, a escola torna-se um verdadeiro espaço de interculturalidade, contribuindo para o desenvolvimento académico, pessoal e social de todos os alunos.
Carla Capela
Torres Vedras, 21 de julho de 2026