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"Ser Professor/a na Inter e na Multiculturalidade..."

DAR UM NOVO SENTIDO À PALAVRA “NÓS"

DAR UM NOVO SENTIDO À PALAVRA “NÓS"

por Sónia Múrias Mira Coelho - Número de respostas: 0

DESCRIÇÃO DE UMA SITUAÇÃO VIVENCIADA QUE EVIDENCIE IMPACTO AO NÍVEL DA INTERCULTURALIDADE NA EDUCAÇÃO – EXEMPLO DE CASO DE ALUNOS/AS MIGRANTES

-Análise do caso à luz dos desafios e dos benefícios da diversidade cultural para a aprendizagem

 

Na minha escola embora existam cada vez mais alunos migrantes, tenho tido poucos como meus alunos, com exceção dos alunos brasileiros, que são aqueles que com mais frequência estão inscritos nas minhas aulas, mas muitos deles já estão integrados, não exigindo grandes alterações nas dinâmicas das aulas, até pela facilidade da língua.

No entanto,  já tenho tido alunos angolanos, um russo, um dinamarquês (num ano Probatório)  que são exemplos mais relevantes para a compreensão da emergência de uma educação intercultural.

Vou focar-me no caso do aluno russo.

O ano passado tive um aluno russo inserido numa turma do Curso científico-humanísticos. Ele gostaria de estar numa turma de Humanidades, mas a escola não tinha vaga, de modo que tinha mais dificuldades nas disciplinas e Física e Química A e Biologia e Geologia. Na disciplina que leciono, Filosofia, ele estava muito interessado, apesar de nunca ter tido Filosofia no seu currículo. Era um autodidata e conhecia muitos filósofos. Era muito culto e um excelente leitor. Conhecia muitos mais livros do que os restantes alunos da turma. Essa partilha foi enriquecedora para todos. O problema era mesmo a língua. Já entendia algumas palavras e conseguia perceber o sentido das ideias gerais, pois era bastante inteligente e concentrado.

O aluno tinha aulas de Português Língua Não materna, mas faltava bastante a essas aulas.

Para ultrapassar a dificuldade da Língua resolvi sintetizar as ideias chave de cada aula  em inglês, de modo a que ele conseguisse acompanhar a discussão das aulas e a turma também conseguisse entender as suas ideias, uma vez que a maioria tinha facilidade em inglês. Além disso, coloquei no Classroom materiais diversifcados em inglês sobre as temáticas da aula.Traduzi os testes para inglês e deixei-o responder em inglês, ou caso preferisse tentar o português deixei-o usar o Google translate. No entanto, a professora de Português e as restantes professoras achavam que eu estava a proceder mal, pois assim ele nunca mais aprendia o Português...

Ele próprio estava sempre a dizer-me para eu falar português, que ele acompanhava o essencial.

Assim,  progressivamente ele foi participando e debatendo com as poucas palavras que dominava em português e quando não conseguia falava em inglês.

Em termos de estratégias de integração, usei a estratégia de partilha de histórias de vida, pedi-lhe para nos descrever como era o Ensino na Rússia e contar a sua experiência sobre livros que eram proíbidos de ler lá. Para a restante turma foi também uma aprendizagem.

Solicitei que pesquisasse filósofos russos para tornar o curriculo mais inclusivo e partilhar as suas pesquisas com a turma. Dinamizei várias estratégias colaborativas, de debate e de trabalho de grupo para que a partilha de ideias e a cooperação favorecessem a sua integração e promovessem uma abordagem intercultural.

Além disso, para facilitar a sua integração segui uma abordagem de envolvimento comunitário de aproximação com a famíla, convidando o seu encarregado de educação, que era cineasta, para um apresentação sobre a sua atividade no Dia mundial da Filosofia.

Dinamizei trabalhos em que os alunos mais competentes na disciplina seriam tutores para apoiar o aluno com as barreiras linguísticas.

Com todas estas atividades pretendi exercitar a empatia e a tolerância, para que a restante turma não se deixasse influenciar pelos estereótipos que a guerra da Russia contra a Ucrania poderia gerar.

Com este caso, aprendi a ajudar os alunos a superar as barreiras da língua e os preconceitos culturais através de atividades inclusivas e de cooperação, seguindo uma abordagem de diálogo intercultural. Assim, foi também uma aprendizagem de “humanidade”.

Hoje mais que nunca quando olhamos para os nossos irmãos, sejam russos, ucranianos, angolanos ou de outra cultura qualquer,  é urgente destronar o discurso de um “EU encerrado em si próprio” e educar para esta empatia pelo Outro, dando um novo sentido à palavra “NÓS”, reconstruíndo incessantemente o sentido do diálogo, que é afinal o verdadeiro sentido do humano.