SESSÃO 2
“Ser professor/a na Inter e na Multicultiralidade”
- Descrição de uma situação vivenciada que evidencie impacto ao nível da Interculturalidade na Educação – exemplo de caso de alunos/as migrantes.
-Análise do caso à luz dos desafios e dos benefícios da diversidade cultural para a aprendizagem.
Diário de bordo
Dia 2 – 9 de junho de 2026
Ser professor/a na Interculturalidade e na Multiculturalidade
Para acolher, também tenho de me envolver porque cada um de nós tem a sua responsabilidade na construção de uma escola verdadeiramente inclusiva e intercultural.
Nesse sentido, gostaria de partilhar uma situação vivenciada neste ano letivo, na escola onde leciono. Em meados de março, recebemos uma aluna transferida de outro agrupamento. Natural do Bangladesh, a aluna apresentava muitas dificuldades de compreensão e expressão em língua portuguesa, embora conseguisse comunicar em inglês. Esta situação constituiu um desafio não só para a própria aluna, mas também para mim, para a turma, para os professores do conselho de turma e para toda a comunidade educativa.
Enquanto professora e diretora de turma, procurei criar condições para que a aluna se sentisse acolhida, respeitada e integrada desde o primeiro momento. Para esse efeito, recorri a uma disciplina que leciono, VAL (Voz do Aluno), um espaço privilegiado para o diálogo, a reflexão e a participação ativa dos alunos.
Promovi uma discussão em torno da chegada da nova colega, procurando sensibilizar os alunos para a importância do acolhimento e da integração. Foram analisadas reportagens sobre migrantes e estrangeiros a viver em Portugal, debatidas questões relacionadas com a diversidade cultural e criados momentos de partilha de opiniões e experiências. Procurei, acima de tudo, dar voz aos alunos, incentivando-os a refletir sobre os desafios enfrentados por quem chega a um novo país, a uma nova língua e a uma nova cultura.
A intervenção da equipa de Mediadores Linguísticos e Culturais da escola revelou-se igualmente muito importante. Através do seu trabalho, foi possível esclarecer dúvidas, identificar necessidades e promover estratégias que facilitassem a integração da aluna no contexto escolar e social.
Esta experiência permitiu-me compreender, mais uma vez, que a diversidade cultural pode trazer grandes desafios. A barreira linguística, as diferenças culturais, o sentimento de isolamento ou a dificuldade em criar relações com os pares podem constituir obstáculos ao bem-estar e ao sucesso escolar dos alunos migrantes. Por outro lado, estes desafios exigem da escola uma maior capacidade de adaptação, colaboração e resposta educativa.
Contudo, os benefícios da diversidade cultural também podem superar as dificuldades. A presença de alunos de diferentes nacionalidades, línguas e culturas constitui uma oportunidade única de aprendizagem para todos. Permite desenvolver competências de comunicação intercultural, promover a empatia, combater estereótipos e preconceitos e alargar o conhecimento sobre diferentes realidades e formas de viver.
No caso desta turma, a chegada da aluna do Bangladesh contribuiu para despertar a curiosidade dos colegas, fomentar o diálogo e reforçar valores como o respeito, a solidariedade e a inclusão. Mais do que integrar uma aluna, procurámos construir uma comunidade de aprendizagem onde todos se sentissem valorizados e onde a diferença fosse encarada como uma mais-valia e não como um problema.
Enquanto professora, esta experiência reforçou a convicção de que a interculturalidade vai muito além da coexistência de diferentes culturas no mesmo espaço. Ela constrói-se diariamente através das relações, do diálogo, da escuta e do envolvimento de todos os intervenientes porque acolher verdadeiramente implica procurar conhecer, compreender, ir ao encontro e caminhar ao lado do(s) outro(s).