1. Descrição de uma situação vivenciada que evidencie impacto ao nível da Interculturalidade na Educação.
No âmbito do desempenho das minhas funções como docente do 3.º Ciclo, tive a oportunidade, ao longo dos últimos quatro anos, de acompanhar alunos oriundos de diferentes países, nomeadamente da Geórgia, Ucrânia, Polónia, Rússia, Paquistão e Cabo-Verde.
Uma das situações que considero significativa, com destaque para a relação pedagógica e acompanhamento de um aluno de origem migrante que estava a adaptar-se à realidade sociocultural portuguesa, nomeadamente à língua, às aprendizagens essenciais e às dinâmicas de um entorno escolar completamente diferentes, foi a do aluno paquistanês. O apoio educativo exigiu uma atenção particular e direcionada para as suas características e necessidades linguísticas e pedagógicas, nomeadamente ao nível do PLNM, já que o aluno dominava bem a língua inglesa, mas não falava nem compreendia português. A turma onde foi inserido, no 7º ano, foi uma turma de desporto, especializada em raquetes, o que lhe ofereceu uma oportunidade e dinâmica de vivência de grupo mais inclusiva devido às próprias características do desporto escolar que atua como uma linguagem universal onde as regras do jogo e o movimento corporal superam as barreiras tradicionais de integração. Foi nítido, igualmente, que as regras de fair play, respeito mútuo, disciplina e gestão do sucesso ou da frustração ajudaram na adaptação às normas sociais do país de acolhimento. Nesta medida, o aluno sentiu-se mais integrado no grupo restrito que é a turma dentro da comunidade escolar e a sua adaptação foi facilitada. Nas restantes disciplinas, o Conselho de Turma tentou criar medidas estratégicas essenciais para a plena integração que acompanhassem as disciplinas de desporto e ultrapassassem as barreiras linguísticas e culturais.
Este aluno, no início do ano letivo, não estava receptivo à partilha de experiências em relação ao seu país de origem ou à religião que professa, sentindo alguma resistência por parte dos colegas que lhe perguntaram se vinha de um país “terrorista”. Esta questão, ao que soube, foi levantada várias vezes, mas não na minha disciplina. A partir deste ponto, as estratégias educativas para a inclusão tiveram de ser dirigidas para o aluno migrante e para os restantes alunos que, naturalmente, desconhecem detalhes da geopolítica que tiveram de ser focados a fim de construir um ambiente de confiança e conforto emocional propício à aprendizagem e à valorização da cultura de quem vem para Portugal em busca de uma nova oportunidade, mas que, naturalmente, não tenciona descartar-se da sua identidade e património cultural próprios, pois estes são a base de construção de uma memória coletiva que enriquece os indivíduos e lhe conferem sentimentos de pertença. A desconstrução de estereótipos foi algo que teve de ser, igualmente, trabalhado de forma funcional e dirigida a todos.
2. Análise do caso à luz dos desafios e dos benefícios da diversidade cultural para a aprendizagem.
A situação descrita evidencia alguns desafios associados à diversidade cultural na escola, especialmente no que concerne à aprendizagem da língua portuguesa, à adaptação a novas dinâmicas sociais e culturais, assim como, escolares. O primeiro passo foi repensar como iria ensinar História ultrapassando a barreira linguística, já que o aluno não compreendia uma palavra de português, assim como, toda a sua família, incluindo uma irmã mais velha que também está a estudar na mesma escola.
A única solução foi lecionar os conteúdos em português e depois em inglês e adaptar, posteriormente, os elementos de avaliação. Esta adaptação foi inserida nas medidas universais de suporte à aprendizagem e inclusão e adaptação dos elementos de avaliação. Tive, de igual forma, o apoio da professora de PLNM e da docente de inglês que me auxiliou em algumas estratégias de abordagem, inclusivamente, no manuseamento de algum vocabulário mais técnico que me lançou num estudo do idioma inglês de forma mais profunda no momento da preparação das aulas e do material de apoio ao estudo.
De salientar que, apesar do aluno ter acesso ao manual digital (o seu uso na Região Autónoma dos Açores é obrigatório) que faz a tradução automática para inglês, tal nunca foi solicitado pelo aluno em aula apesar de ser uma estratégia que usei em vários momentos na análise de conteúdos e documentos. Também na construção dos materiais, e aqui em conjunto com o docente de Português que lecionava PLNM e com o auxílio da equipa EMAEI, foi estabelecida uma estratégia de adaptação dos mesmos, mas potenciando a autonomia do aluno, já que estávamos perante uma criança muito disciplinada no estudo, com muito apoio familiar, a integrar-se de forma rápida, tímida, mas acessível no contacto interpessoal e estudiosa, com preocupação em ultrapassar as barreiras que se colocam à aprendizagem.
Considero que o professor tem um papel preponderante nesta etapa de adaptação do aluno migrante e na criação de um sentido de pertença a uma nova comunidade e a uma nova escola e cultura. Também considero que os alunos migrantes não devem abandonar a sua identidade, devem preservar a sua memória e partilhar as suas características com a restante comunidade escolar. Neste domínio e sempre que as aprendizagens essências na disciplina de História o permitiram, contextualizei a religião muçulmana e convidei o aluno a partilhar a sua experiência pessoal que foi alvo de máxima e atenção e, por vezes, espanto, por parte dos colegas da turma que o questionaram de forma saudável acerca dos aspetos do islamismo. O aluno teve a oportunidade de explicar como geria as suas orações diárias, como celebrava em família o Ramadão, explicando que estava dispensado do respetivo jejum, por exemplo.
Estas partilhas, permitiram que os colegas também aprendessem novas práticas culturais e olhassem para quem era diferente com uma nova perspetiva.
De salientar que este aluno entrou no quadro de honra no 8º ano, está plenamente adaptado, conseguiu ultrapassar rapidamente a barreira linguística, mas considero que foi um caso de sucesso e que nem sempre o desfecho é este.