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"Ser Professor/a na Inter e na Multiculturalidade..."

Quando a diferença entrou na sala de aula.

Quando a diferença entrou na sala de aula.

por Carlos Alberto Almeida Rodrigues - Número de respostas: 0

 

No início do ano letivo, chegou à turma do 10.º ano um novo aluno, a quem vou chamar Samuel, vindo de um país africano de língua oficial portuguesa. Tinha chegado a Portugal há poucos meses e, apesar de compreender algum português, tinha dificuldades em acompanhar algumas aulas, sobretudo quando os professores utilizavam vocabulário mais específico ou davam instruções mais longas.

Nas primeiras semanas, o Samuel era bastante reservado. Raramente participava espontaneamente e, nos trabalhos de grupo, tendia a ficar mais calado. Alguns colegas tentavam ajudá-lo, mas acabavam muitas vezes por fazer o trabalho por ele. Outros simplesmente não sabiam muito bem como interagir com ele. Aos poucos, comecei a perceber que a dificuldade não era apenas linguística. Havia também diferenças nos hábitos escolares, nas referências culturais e até na forma como os alunos entendiam determinadas situações.

Numa aula de Inglês, estávamos a trabalhar o tema “Teenagers around the world”. Pedi aos alunos que, em pequenos grupos, comparassem a vida dos adolescentes em diferentes países: escola, família, música, alimentação, tempos livres e relações entre gerações.

Durante a atividade, surgiu uma discussão interessante. Um dos alunos afirmou que “os adolescentes em África provavelmente têm uma vida muito diferente porque são mais pobres”. O Samuel ficou inicialmente calado, mas acabou por responder que África não era um país e que a sua experiência era muito diferente daquela imagem que o colega tinha apresentado.

A conversa poderia ter terminado ali, mas aproveitei o momento para transformar o comentário numa oportunidade de aprendizagem. Pedi aos alunos que pensassem sobre como construímos as nossas ideias sobre outras culturas e de onde vêm essas ideias.

Na aula seguinte, propus um pequeno projeto: cada grupo deveria investigar um país representado na turma ou nas experiências familiares dos alunos. O Samuel teve a oportunidade de apresentar o seu país, mas não como “o aluno estrangeiro que vai falar sobre a sua cultura”. Trabalhou com dois colegas e decidiram apresentar música, gastronomia, expressões linguísticas e aspetos do quotidiano dos jovens.

O resultado foi interessante. Os colegas descobriram que havia muitas diferenças, mas também muitas semelhanças: os mesmos artistas internacionais, preocupações semelhantes com a escola, gosto por futebol, redes sociais, videojogos e música.

Depois da apresentação, um dos colegas comentou:

“Eu pensava que a vida dele era completamente diferente da nossa, mas afinal temos muito mais coisas em comum do que eu imaginava.”

Para mim, esse foi o momento mais importante da atividade. O objetivo deixou de ser simplesmente “integrar o Samuel”e passou a ser permitir que toda a turma aprendesse com a diversidade que já existia dentro da sala de aula.

(esta história é parcialmente ficcional - parte dela existiu a sequência foi um pouco trabalhada)