Quando perguntamos "o que é a ética", tendemos a imaginar que existe uma resposta única e universal, isto é, um conjunto de regras ou princípios válidos para qualquer ser racional, em qualquer tempo e lugar, independente de qualquer cultura ou valores. É essa, em grande medida, a herança que recebemos da modernidade: uma ética pensada como sistema ou como código.
Aristóteles não pensa assim. Para ele, a ética (ethike) não é um saber demonstrativo como a matemática, nem procura leis universais aplicáveis com precisão aplicável em qualquer caso. A ética é um saber prático, cujo desiderato não é o conhecer por conhecer, mas o agir bem, sendo que este agir bem dependerá sempre de quem age, do agente, da situação concreta, do momento. A ética, para Aristóteles, nasce da observação de como os homens vivem e do que, de facto, torna uma vida boa e não de um sistema de regras deduzido a priori.
Isto tem uma consequência, quiçá, incómoda: se a ética aristotélica não oferece regras fixas, mas depende do discernimento de cada agente em cada situação, não corremos o risco de cair num relativismo disfarçado de sabedoria prática? Ou será, pelo contrário, que é a própria ideia de uma ética "universal e sem exceções" que é ingénua porque ignora que viver bem é sempre viver esta vida, neste corpo, neste tempo, nesta cidade, com estes outros?
Posto isto, quando hoje falamos de "ética" - em código deontológico, em regras profissionais - estamos ainda a falar da mesma coisa que Aristóteles chamava ethike? Ou perdemos, pelo caminho, exatamente aquilo que ele considerava essencial: que a ética não é sobre saber o que é bom em geral, mas sobre tornarmo-nos capazes de o reconhecer e de o fazer, aqui e agora?