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Afinal, existe "a ética" ou existem apenas éticas?

Afinal, existe "a ética" ou existem apenas éticas?

por José Júlio Maria de Almeida - Número de respostas: 2

Quando perguntamos "o que é a ética", tendemos a imaginar que existe uma resposta única e universal, isto é, um conjunto de regras ou princípios válidos para qualquer ser racional, em qualquer tempo e lugar, independente de qualquer cultura ou valores. É essa, em grande medida, a herança que recebemos da modernidade: uma ética pensada como sistema ou como código.

Aristóteles não pensa assim. Para ele, a ética (ethike) não é um saber demonstrativo como a matemática, nem procura leis universais aplicáveis com precisão aplicável em qualquer caso. A ética é um saber prático, cujo desiderato não é o conhecer por conhecer, mas o agir bem, sendo que este  agir bem dependerá sempre de quem age, do agente, da situação concreta, do momento. A ética, para Aristóteles, nasce da observação de como os homens vivem e do que, de facto, torna uma vida boa e não de um sistema de regras deduzido a priori.

Isto tem uma consequência, quiçá, incómoda: se a ética aristotélica não oferece regras fixas, mas depende do discernimento de cada agente em cada situação, não corremos o risco de cair num relativismo disfarçado de sabedoria prática? Ou será, pelo contrário, que é a própria ideia de uma ética "universal e sem exceções" que é ingénua porque ignora que viver bem é sempre viver esta vida, neste corpo, neste tempo, nesta cidade, com estes outros?

Posto isto, quando hoje falamos de "ética" - em código deontológico, em regras profissionais - estamos ainda a falar da mesma coisa que Aristóteles chamava ethike? Ou perdemos, pelo caminho, exatamente aquilo que ele considerava essencial: que a ética não é sobre saber o que é bom em geral, mas sobre tornarmo-nos capazes de o reconhecer e de o fazer, aqui e agora?

Em resposta a 'José Júlio Maria de Almeida'

Re: Afinal, existe "a ética" ou existem apenas éticas?

por Marcos Bazmandegan -
Muito interessante. Hoje, os códigos deontológicos são "cartilhas". A Ética envolveu sempre uma dimensão maior. Há situações que o melhor a fazer numa circunstância é exatamente o contrário do que está na cartilha. Por isso, talvez os computadores nunca poderão ser éticos nesta dimensão maior do conceito. Poderemos programar uma IA a pensar à maneira aristotélica? Mas esta já é outra questão...
Em resposta a 'José Júlio Maria de Almeida'

Re: Afinal, existe "a ética" ou existem apenas éticas?

por Xavier Emanuel Correia da Silva -
A ética distingue-se do conceito de moral, e até mesmo de filosofia moral (que é apenas um ramo da ética enquanto área de investigação da filosofia).
Aristóteles, apresenta-nos uma ética, não não uma filosofia da moral ou teoria da moral. Ele não teve a pretensão de encontrar regras ou costumes deontológicos universais e objetivos como Kant e outros filósofos modernos.

A minha leitura de Aristóteles, é que a a sua ética é um caminho de formação humana, compreendendo o ser humano como um ser que se atualiza para um determinado fim. Portanto o projeto da ética aristotélica é apresentar um sentido de formação humano objetivo e racional, sem pretensões de juizos morais (regras) mas onde a moralidade se efetua na vida concreta através de ações virtuosas.

As regras cabem ao Direito e às Leis, e não diretamente à Ética.