Que contributos podem dar a ética de Aristóteles e de Espinosa para a ética da democracia digital?
Re: QUESTÃO PARA DISCUSSÃO
por Rui Jorge Ribeiro Teixeira -Destarte, parece-me que a ética de Aristóteles fornece um nutriente para a perdurante reflexão ética acerca da vida política: o alargamento da participação e consequente desconcentração e ponderação do poder.
Neste sentido, salvaguardadas as diferenças contextuais entre as propostas do Estagirita (focadas na intervenção da aristocracia em detrimento da discricionariedade do poder imperial) e o enquadramento hodierno da democracia digital, a sua ideia de que a ética se traduz num caminho de excelência que cada cidadão da pólis pode percorrer por si próprio fixa-se, a meu ver, como uma bitola exigente e salutar em relação à ação individual nos nossos dias, a fim de que o espaço público vertido digitalmente divirja da vozearia inconsequente e nivelada por baixo em que muitas vezes redunda, sem benefício comum.
Re: QUESTÃO PARA DISCUSSÃO
por Sónia Emília Veiga Rossa -Caros e Caras.
Nesse discorrer de ideias, uma nova questão emerge (sem querer desviar muito o foco inicial): Que contributos podem dar as éticas de Aristóteles e de Espinosa para a ética do ser Professor, numa democracia digital?
Diante da apneia crescente do virtual (espécie de lobotomia digital e miopia do algoritmo) e da vertigem do imediato, continuamos em mãos com o dever do desenvolvimento integral de cada aluno/cidadão e respetiva narrativa de sentido.
Não contra mas através da IA, evitando transformar a inovação das escolas e das salas de aula num catavento de novidades ou num GPS de rotas quiméricas. A ideia é não ser vítima de um "botox" tecnológico total, danoso à aprendizagem dos alunos / cidadãos.
Daí a questão poder não ser técnica mas ética? Ou vice-versa?
Re: QUESTÃO PARA DISCUSSÃO
por Rui Jorge Ribeiro Teixeira -Estimadas,
De algum modo, no meu ponto de vista, a questão é eminentemente ética.
Centrando o raciocínio naquela primeira distinção entre ética e moral, à qual aludiu o Professor Marcos, a educação radica no projeto filosófico que procura o que é mais adequado para o ser humano, em razão da sobrevivência. Ora, no tempo presente, este objetivo não se dissocia do habitáculo digital em que medram praticamente todos os aprendentes (no nosso sistema educativo, penso poder absolutizar, sem ser hiperbólico). Portanto, apontando a "justa medida" aristotélica à harmonia existencial, parece-me que tal escopo alinha a tarefa docente e o caminho discente por uma via saudável, sem demonizar o digital, mas integrando-o de modo a que configure um bem a veicular pedagogicamente.
Re: QUESTÃO PARA DISCUSSÃO
por Maria de Fátima Ramos Corga -Partilho da ideia de que a relação com o digital não deverá ser pensada numa lógica de oposição ou de demonização da tecnologia, mas antes a partir da necessidade de encontrar formas equilibradas e humanamente significativas de a integrar. A referência aristotélica à justa medida parece-me, neste sentido, especialmente fecunda, na medida em que nos convida a pensar não apenas sobre o uso da tecnologia, mas sobretudo sobre o modo como esse uso pode contribuir para uma vida orientada pelo equilíbrio, pela responsabilidade e pelo desenvolvimento humano.
Naturalmente, este é apenas o meu ponto de vista sobre a questão, mas considero que a sua reflexão abre um caminho muito interessante para pensar a educação e a ética no contexto digital contemporâneo.
Agradeço, uma vez mais, a partilha e o contributo para esta reflexão.
Só Maria por favor.
Re: QUESTÃO PARA DISCUSSÃO
por Sónia Emília Veiga Rossa -"Não contra mas através da IA, ..." disse e repito.
Concordo a 100% convosco. Apenas pensei nos exageros onde a IA é usada e abusada. Sem mais.
Reescrevo a conclusão do raciocínio do Rui onde diz "Portanto, apontando a "justa medida" aristotélica à harmonia existencial, parece-me que tal escopo alinha a tarefa docente e o caminho discente por uma via saudável, sem demonizar o digital, mas integrando-o de modo a que configure um bem a veicular pedagogicamente."
Até já!