Recebi numa das minhas turmas de 7º ano na disciplina de Francês um aluno, Yaroslav Liashko, migrante oriundo da Ucrânia, cujos pais tinham fugido à guerra. Não tinha nenhum conhecimento básico de Português nem tão pouco de Francês. Recordo como era penoso para mim vê-lo inseguro, de cara fechada e revoltado porque desejava ter ficado no seu país. Na sala de aula, demonstrava apatia e desinteresse total. Não existia dúvida alguma de que a barreira linguística se revelava um entrave enorme à sua integração não só na comunidade escolar como no país estrangeiro que, não sei, se o tinha escolhido ou se lhe tinha sido imposto.
Nesse ano letivo, para tentar integrá-lo nas dinâmicas de sala de aula e enriquecê-las, fui fomentando atividades diversas e interações lúdicas atinentes a temas que permitissem a todos os alunos descobrir e conhecer melhor a cultura e as tradições, não só dos países francófonos como também da Ucrânia. Procurei criar momentos em que os alunos apresentavam os seus trabalhos realizados em pares ou em grupo e mesmo individualmente, num ambiente descontraído, mediante a partilha de pesquisas, vivências e experiências culturais, o que com o tempo deixou Yaroslav mais seguro e com vontade de partilhar e dar a conhecer com orgulho as suas também. Foi assim, indubitavelmente, com a ajuda solidária dos colegas de turma que funcionavam como tutores, que Yaroslav foi ficando cada vez mais entusiasmado e mais confiante, e aí pude assistir alegremente à uma transformação de postura muito positiva. Não obstante ter sido necessário uns largos meses para que ele próprio não recusasse mais a ajuda dos seus pares e dos professores e se sentisse verdadeiramente integrado e valorizado na turma, foi um ganho absoluto para a turma inteira em termos de aprendizagens e valores, e muito gratificante ter assistido à sua evolução e ao seu crescimento pessoal e acadêmico. As interações e intervenções de cada um refletiam já aquele misto de curiosidade em querer saber cada vez mais sobre o outro e respeito pelas diferenças, criando momentos muito enriquecedores pautados pela empatia mútua num ambiente de aprendizagem colaborativa e inclusiva.
Análise do caso
Desafios: Por um lado, a barreira linguística apresentou-se como um desafio não só para ele como para quem convivia com ele. Yaroslav enfrentou com efeito dificuldades para comunicar eficazmente com os seus pares e com os restantes elementos da comunidade escolar. Por outro, a diferença nas experiências e referências culturais o isolavam igualmente de tudo e todos.
Benefícios: Na partilha da riqueza da sua cultura e tradições, ele contribuiu para um ambiente de aprendizagem mais dinâmico, interativo, enriquecendo a experiência de todos. Ademais o aluno ajudou a cultivar um senso de empatia entre alunos, permitindo uma compreensão mais profunda de como as diferenças culturais podem enriquecer o meio escolar. E ele adquiriu sobremaneira confiança ao interagir e realizar trabalhos em conjunto com os seus colegas, desenvolvendo suas habilidades de comunicação em francês e em português num contexto significativo.
Este exemplo evidencia como a Interculturalidade na Educação não apenas beneficia o aluno migrante, proporcionando-lhe um ambiente acolhedor, mas também enriquece os colegas ao ampliar a sua perspectiva do mundo. A profissionalização do ensino deve contemplar esses aspetos, promovendo uma educação que valorize a diversidade como um elemento central do processo de aprendizagem.