A minha escola é como se fosse um mundo com vinte países. Estes países não têm fronteiras, nem exércitos, nem armas nucleares apontadas uns aos outros. São países jovens, cheios de sonhos, cheios de futuro e chamam-se Khauan, Li Peng, Sebastian, Angel, Fátima, François, Jean-Jacques, Kate, Michael, Alina, Mohammed, Paco, Deepanshi, Maria Leonor...
Estes países estão na mesma turma e aprendem matemática, Inglês, português, PLNM, ciências, mas também ensinam geografia, mandarim, nepalês, cultura internacional, gastronomia…
As relações entre eles estabelecem-se naturalmente nas aulas, nos intervalos, ao fim de semana: o Sebastian namora com a Maria Leonor, a Alina convidou a Kate para visitar Kiev quando a guerra acabar, o Khauan acabou com a Deepanshi, a Li Peng foi à festa do crisma da Fátima, o Michael, o Paco e o Mohammed jogam futebol na mesma equipa…
Todos se regem pelo Regulamento Interno do Agrupamento, que lhes confere os mesmos direitos: ser tratado com respeito e correção por qualquer membro da comunidade educativa, não podendo, em caso algum, ser discriminado em razão da origem étnica, saúde, sexo, orientação sexual, idade, identidade de género, condição económica, cultural ou social ou convicções políticas, ideológicas, filosóficas ou religiosas;
E os mesmos deveres. E se há indisciplina, o que em jovens e entre jovens ocorre com mais ou menos frequência, o tratamento é igual para todos porque todos são iguais à luz do Regulamento Interno. Curiosamente, enquanto instrutora de processos disciplinares, nunca encontrei situação que pudesse enquadrar como caso de xenofobia, racismo, preconceito, qualquer coisa semelhante a “Preto!”, “Vai para o teu país!” ou o tristemente célebre “Isto não é o Bangladesh.”
E a comunidade docente e não docente alegra-se com as conquistas e os sucessos dos jovens, dos que nasceram cá, descendentes de gerações aqui estabelecidas há décadas ou séculos, mas, também, com o sucesso dos imigrantes que estão cá há meses porque conhecem as dificuldades que passaram para chegar cá e as dificuldades que passam para vingar num território diferente. E porque conhecem a missão do Projeto Educativo do Agrupamento (promover a inclusão de todos os alunos, agregando a diversidade socioeconómica, cultural, cognitiva e motivacional, sendo garante de equidade e democracia, promotor do acesso e da participação em todos os contextos educativos, garantindo o acesso à aprendizagem e à participação através da gestão flexível do currículo;) o Código de Conduta do Agrupamento (Artº 3 - Definir uma política ativa de prevenção e combate a toda e qualquer forma de assédio e/ou discriminação; Artº 4 - O AEMIRA assume-se como uma instituição aberta à cidadania e à cooperação entre as pessoas e os povos e à interação de culturas, no respeito pelos valores da independência, da tolerância, do humanismo e da excelência. Artº 5 No exercício das suas funções, a Comunidade Educativa do AEMIRA deve respeitar os princípios gerais de conduta, designadamente: a) Respeito pela dignidade da pessoa humana; b) Igualdade, não discriminação e inclusão;); o Regulamento Interno; o Núcleo Erasmus+, eTwinning & Intercâmbios (um espaço que pretende dinamizar e organizar projetos que levem os alunos do AEM a participar em atividades, eventos e viagens que lhes permitam o contacto com diferentes contextos sociais, económicos, religiosos, etc., numa lógica de valorização da comunicação, heterogeneidade e da diferença); o Clube Europeu (tem como objetivo promover a dimensão europeia na educação, incentivando competências, atitudes e valores essenciais ao exercício de uma cidadania ativa e responsável. No ano letivo de 2024/2025, a proposta anual temática da Direção-Geral da Educação (DGE) é “Diversidade e Inclusão: cidadania europeia num contexto de multiculturalidade”).
No entanto, a escola não cruza os braços e continua a trabalhar para melhorar sempre e sempre, no que concerne à interculturalidade: nomeou uma mediadora cultural e elaborou um manual de acolhimento traduzido em várias línguas (Acolhimento de alunos-Bem-vindo ao AE Mira!- O AE Mira valoriza a diversidade cultural e compromete-se com a inclusão e o sucesso de todos os alunos. Estamos preparados para te receber, apoiar e acompanhar durante o teu percurso escolar.).
E assim continuaremos porque só temos a ganhar quando aprendemos a partir do outro: let it be a dialogue, I want to learn from you.