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"Ser Professor/a na Inter e na Multiculturalidade..."

"Ser Professora na Inter e na Multiculturalidade"

"Ser Professora na Inter e na Multiculturalidade"

por Ofélia Figueiredo Moreira da Silva - Número de respostas: 0

No que respeita ao primeiro tópico, começo por referir que durante o início deste ano letivo tive no meu horário ARA e ia prestar apoio a um menino  migrante da Ucrânia do 8º. Ele ingressara na nossa Escola no 7ºano. O Makar era um menino muito reservado, de semblante triste, não olhava nos olhos daqueles que lhe eram próximos, contudo, era muito resiliente, tentava decifrar rotinas, expressões e comportamentos que para todos nós são familiares. A língua era uma barreira, pois pouco compreendia e comunicava , fazia-o, muitas vezes, por gestos e expressões faciais. O Makar , ao longo do primeiro trimestre, revelava no rosto uma mistura de frustração e cansaço emocional, pois os seus gestos eram tensos: franzia o sobrolho, apertava os punhos, desviava o olhar para o caderno ou livro por não compreender as instruções. Permanecia numa revolta silenciosa por estar preso entre o desejo de aprender e a incapacidade de acompanhar.Sempre que tentava participar, o corpo inclinava para a frente, como quem quisesse participar, mas rapidamente recuava, consciente de que a língua o iria trair.A expressão facial revelava o peso psicológico de sentir que não conseguia comunicar, nem mostrar o que sabia. A sua revolta era , sem dúvida, um pedido de ajuda, de apoio, de tempo e de compreensão.A partir da observação destes gestos era essencial que os alunos, professores, e eu em particular, ajustássemos estratégias, criando espaços de segurança, acolhimento e comunicação visual, permitindo que o Makar encontrasse, pouco a pouco, o seu lugar. Então, a primeira atividade de grupo revelou-se  um grande impacto intercultural, já que havia alunos que hesitavam em o incluir, outros mostraram-se curiosos e com vontade de ajudar. Ao longo das semanas foi preciso trabalhar a parte emocional e humanizar as relações com  Makar: empatia, diálogo, reforçar a autoestima, respeitar  o tempo que necessitava para interiorizar os conhecimentos, cooperar nas atividades como se fosse o aluno... Makar trouxe muitos desafios desde a barreira da língua(dificuldades de comunicação, de compreensão e de participação); adaptação emocional( múltiplas mudanças com hábitos, formas de interação e expectativas muito diferentes, basta não saber como se integrar , pois muitos seus colegas também não sabiam como comunicar com ele.)Com o tempo, pequenas situações tornaram-se marcantes: explicação de  regras de jogos, tradução de palavras de como funcionavam as aulas, sendo este espaço uma experiência  de várias vivências.Estes desafios exigiram estratégias de mediação , comunicação visual, apoio entre pares e momentos sobre diversidade cultural. Esta diversidade humaniza relações e torna a aprendizagem mais profunda, consciente e significativa.

Quanto ao segundo ponto, já respondi em parte, mas reitero que a experiência com o Makar evidencia como a diversidade cultural traz exigências pedagógicas e também oportunidades de crescimento por parte de toda a comunidade educativa. A maior dificuldade consiste em compreender o português, gerando frustração, revolta e retraimento, afetando a participação e o bem-estar físico e psicológico. Associada a esta dificuldade está não só o choque cultural e a existência de grandes tensões psicológicas, mas também uma outra dificuldade acrescida, a da integração social ( adaptação às rotinas escolares como regras, tempos e expectativas, exigindo muito apoio e acompanhamento). O lado positivo, prende-se com a empatia e solidariedade dos colegas e dos professores, bem como a comunicação de forma mais clara, paciente e inclusiva. As partilhas culturais são riquíssimas, tornando as aprendizagens mais valiosas. A diversidade passou a ser vista como valor, fortalecendo a convivência.  O respeito, a flexibilidade, a cooperação são competências interculturais fundamentais entre todos elementos da comunidade.

Em suma, a diversidade cultural traz grandes desafios, mas também potencia muitas aprendizagens, transformando a sala de aula num espaço mais humano e preparado para a formação de cidadãos mais capazes de viver na pluralidade.