Uma peculiar decadência da vida é acusada nas análises de Arendt sobre o fenómeno totalitário e os campos de concentração, “o primeiro passo essencial no caminho do domínio total é matar a pessoa jurídica do homem.” Quando certas categorias de pessoas foram excluídas da proteção da lei e por ocasião da desnacionalização maciça o mundo não totalitário se viu forçado a aceitá-las como fora da lei teve lugar a construção dos campos de concentração fora do sistema penal normal. A vida perde em direitos e enfrenta um novo sujeito de poder, para Arendt não será poder mas uma pura violência. Um tal sujeito de poder abandona a morte quando a resguarda dos olhares circundantes, quando não deseja mais celebrá-la por rituais espetaculosos, mas provoca uma profunda inquietação e angústia existenciais quando transforma a vida natural ao ponto de nela quebrar em absoluto as forças necessárias para resistir a uma morte ensaiada. O espetáculo da morte transita para os bastidores de um cenário resguardado dos olhares exteriores em que a vida nua natural passa a ser devorada pela agonia e pelo terror. O domínio totalitário cuidou para que os internos dos campos fossem certas categorias de pessoas predominantemente “inocentes em todos os sentidos, (pois) prestam-se melhor a experiências radicais de privação de direitos e destituição da pessoa jurídica e são, portanto, em qualidade e quantidade, a categoria mais essencial da população dos campos.” Os campos foram construídos com um propósito indescritivelmente infernal onde se produzem em série aglomerados de cadáveres vivos.
Entre muitas obras grandiosas segue a sugestão para:
ARENDT, Hannah, As Origens do Totalitarismo