Seria bom sermos imortais? Seria bom vivermos infinitamente? Os avanços na medicina, a procura da cura de doenças, o aumento da longevidade ... mostram a vontade do ser humano de superar os limites da finitude? O que procura, realmente, o ser humano nessa busca de superação dos limites e porquê?
Em resposta a 'Sofia da Conceição Rico Mesquita'
Re: Imortalidade/finitude
por Gonçalo Renato Correia Vicente Martins -Penso que as pessoas quando falam em imortalidade não se apercebem totalmente das consequências. Eventualmente desejam viver mais, mas o rigor do "sempre' pode ser assustador. O limite dá sentido às coisas, assim como a ascensão e generação em oposição à queda e degeneração. Encontra-se outra consciência quando esta sabe se circunscrever ao momento entre nascer e morrer.
Em resposta a 'Sofia da Conceição Rico Mesquita'
Re: Imortalidade/finitude
por Natércia Maria Anjos Galego de Mendonça -O tema é um clássico na reflexão filosófica. Por que razão a certeza da morte vem acompanhada de tanta perplexidade, e quase de revolta, quando a vemos ocorrer entre os próximos ou à nossa volta?
Tendo a pensar que o tédio relativamente a uma vida indefinida tem a ver com a ideia de que essa vida seria sempre "mais do mesmo". A ideia de uma vida que transcende a morte esteve, até pelo menos ao séc. XVIII, associada à ideia de que a vida depois da morte era de outro tipo: sem trabalho, sem dor, sem cansaço. Assistimos a uma espécie de escatologia intramundana que esteve associada aos grandes ideais político-sociais dos dois últimoas séculos.
Tendo a pensar que o tédio relativamente a uma vida indefinida tem a ver com a ideia de que essa vida seria sempre "mais do mesmo". A ideia de uma vida que transcende a morte esteve, até pelo menos ao séc. XVIII, associada à ideia de que a vida depois da morte era de outro tipo: sem trabalho, sem dor, sem cansaço. Assistimos a uma espécie de escatologia intramundana que esteve associada aos grandes ideais político-sociais dos dois últimoas séculos.
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Re: Imortalidade/finitude
por José António de Figueiredo Lopes Soares -Creio que, tal como os restantes seres vivos, animais, plantas, fungos, bactérias, etc., estamos programados biologicamente para manter a vida que temos, isto é, a vida, qualquer vida, pugna por se prolongar. Distingue-nos, em relação aos outros viventes (não humanos) a nossa capacidade conceptualizar, e daí transpormos aquilo que é um mecanismo ad hoc, o impulso de procura de manutenção da vida, da casuística da vida mantida para a abstração da imortalidade.
A imortalidade assume, desta forma, um desígnio utópico, e o fascínio dessa ideia reside, precisamente, no facto de ser utópica. Não somos apenas espetadores do que acontece, cada um de nós cria e transporta a sua própria mundividência e, segundo essa mundividência, concebe um universo possível em que o que consideramos 'mal' é suprimido - considero que, ao contrário do que argumenta Descartes, não é necessário existir um Ser Perfeito para que tenhamos a noção de perfeição, a nossa mente (não apenas a razão) é bem capaz de conceber a supressão dos defeitos que observamos e conhecemos na existência empírica.
Se concebermos, então, a nossa própria infinitude, prosseguindo a problematização colocada pela colega Sofia, o que seríamos nós? Nessa condição utópica seríamos, necessariamente, outros, provavelmente desprovidos de desejo, de intencionalidade e certamente da inquietação filosófica que nos caracteriza. Se a nossa tragicidade reside, em última análise na consciência de que tudo morre e não queremos isso, caso obtivéssemos a imortalidade, o carácter trágico da existência que conhecemos desapareceria? Suponho que uma outra tragédia se revelaria, a do imobilismo: Estou convicto de que o carácter trágico da nossa existência é condição necessária que nos leva à procura de um sentido, dos 'porquês' e dos 'com que finalidade'. Assim, creio que uma 'estagnação na perfeição' suprimiria, pelo menos, uma das dimensões essenciais do ser humano e que o coloca em movimento, que o faz filosofar.
A imortalidade assume, desta forma, um desígnio utópico, e o fascínio dessa ideia reside, precisamente, no facto de ser utópica. Não somos apenas espetadores do que acontece, cada um de nós cria e transporta a sua própria mundividência e, segundo essa mundividência, concebe um universo possível em que o que consideramos 'mal' é suprimido - considero que, ao contrário do que argumenta Descartes, não é necessário existir um Ser Perfeito para que tenhamos a noção de perfeição, a nossa mente (não apenas a razão) é bem capaz de conceber a supressão dos defeitos que observamos e conhecemos na existência empírica.
Se concebermos, então, a nossa própria infinitude, prosseguindo a problematização colocada pela colega Sofia, o que seríamos nós? Nessa condição utópica seríamos, necessariamente, outros, provavelmente desprovidos de desejo, de intencionalidade e certamente da inquietação filosófica que nos caracteriza. Se a nossa tragicidade reside, em última análise na consciência de que tudo morre e não queremos isso, caso obtivéssemos a imortalidade, o carácter trágico da existência que conhecemos desapareceria? Suponho que uma outra tragédia se revelaria, a do imobilismo: Estou convicto de que o carácter trágico da nossa existência é condição necessária que nos leva à procura de um sentido, dos 'porquês' e dos 'com que finalidade'. Assim, creio que uma 'estagnação na perfeição' suprimiria, pelo menos, uma das dimensões essenciais do ser humano e que o coloca em movimento, que o faz filosofar.
Em resposta a 'José António de Figueiredo Lopes Soares'
Re: Imortalidade/finitude
por Carlos Tomé da Silva Vale Viga -O desejo de imortalidade, como solução para todos os males. de todos os problemas, como garantia de sentido para a vida, remete-me sempre para uma passagem do filme Tróia, em que Aquiles afirma que a vida dos deuses deve ser profundamente entediante. O paradoxal em Aquiles, revela-se na incoerência entre essa afirmação e o seu propósito de vida em torno da glória eterna (uma forma de imortalidade?). De uma forma ou de outra, mais ou menos visceralmente, mais ou menos consciente, parece que paira sobre nós essa aspiração à imortalidade. Aquiles não quer, mas quer, ser imortal.