A pesquisa global não está ativa.
Ir para o conteúdo principal

"A minha viagem... a minha descoberta"

"A minha viagem... a minha descoberta"

"A minha viagem... a minha descoberta"

por Florbela Cardoso Salvador - Número de respostas: 0

SESSÃO 1

“A minha viagem... A minha descoberta”

 

Diário de bordo

Dia 1 – 8 de junho de 2026

 

Inicio hoje a minha formação e aventura sobre “A Interculturalidade na Educação: da Diversidade ao Diálogo”.

A nossa formadora, Diana Silva projetou a imagem de um barco no mar, com velas e mastro, onde se encontram cinco perguntas. Pediu-nos para escrevermos, à mão, a caneta, numa folha em branco, a resposta a cada uma delas. Vou agora procurar reproduzir fielmente num documento virtual word as minhas respostas, tal como foram escritas manualmente.

 

Pergunta 1: Quem sou?

O meu nome é Florbela Salvador. Sou professora de Línguas – Português, Francês e Inglês. Neste momento, sou Professora do Grupo 320 e leciono as disciplinas de Francês ao 9º ano e Português ao 8º.

O meu nome é Florbela, tal como o da poetisa Florbela Espanca. No entanto, cresci e fui escolarizada em França. Em casa, os meus pais falavam comigo e com os meus dois irmãos em português, aquela que seria, supostamente, a nossa língua materna.

Hoje sou professora de línguas, mas antes disso fui também filha de emigrantes e vivi entre duas culturas, entre dois mundos. Essa experiência permitiu-me compreender melhor os desafios, os receios e as conquistas de quem chega a um novo país, a uma nova cultura e a uma nova língua.

No meu caso, o verdadeiro choque cultural aconteceu quando os meus pais decidiram concretizar o sonho de muitos emigrantes portugueses: regressar ao seu país natal. Aos catorze anos, vim viver para Portugal, um país que, apesar das minhas raízes, não sentia verdadeiramente como meu. Foi o início de uma longa caminhada, que continua até hoje.

 Ao longo desse percurso, tive a felicidade de me cruzar com pessoas que me ajudaram a crescer, a compreender a minha identidade e a aceitar quem sou. Com elas aprendi a conviver com diferentes formas de pensar, sentir e viver, bem como com línguas e culturas distintas da minha.

Aprendi que cada pessoa traz consigo uma história única e um património humano precioso, que a diversidade é uma fonte de enriquecimento pessoal, cultural e social, e que é precisamente no encontro com o outro que mais crescemos, como pessoas, seres humanos e cidadãos e ainda que a nossa identidade construída entre línguas, culturas e países diferentes torna-se mais rica e humana.

Hoje, enquanto professora de línguas, procuro transformar a minha experiência pessoal numa oportunidade de acolhimento e compreensão. Talvez seja por isso que me identifico tanto com os meus alunos: porque também eu, em diferentes momentos da minha vida, tive de aprender a encontrar o meu lugar entre duas línguas, duas culturas e duas formas de olhar o mundo.

 Hoje, compreendo que a minha viagem nunca foi apenas entre dois países. Foi uma viagem de descoberta de quem sou. E é essa experiência que levo comigo no Barco da Educação, navegando com os meus alunos, porque sei que cada um deles também procura um Porto onde se sinta compreendido, valorizado e acolhido.

Queria acrescentar que, no exercício de reescrita, senti-me naturalmente impelida a completar, aprofundar e acrescentar informações ao texto inicial. Parte dessas informações já tinha sido partilhada oralmente no início da segunda sessão, aquando da leitura do texto que tinha escrito à mão.

E porque a reescrita implica pensar o ato de escrever, num processo de revisão e reconstrução do texto e, por conseguinte, a reflexão crítica sobre o que foi feito e dito anteriormente, o texto final acabou por resultar da minha reflexão individual, mas a partir de e em conjunto com todas as interações ocorridas ao longo de toda a formação. As intervenções dos meus colegas formandos, bem como os contributos da nossa formadora, proporcionaram-me novas perspetivas e abordagens que enriqueceram significativamente a minha reflexão e me permitiram ampliar o sentido do texto inicialmente produzido.

 

 

 

Pergunta 2: O que faço aqui (na formação)?

Em primeiro lugar, despertou-me a atenção e o interesse o facto de a Formação se centrar na Interculturalidade e não apenas na multiculturalidade, sobretudo por estar enquadrada no contexto da educação e do ensino. Esta distinção pareceu-me particularmente relevante, uma vez que a Interculturalidade pressupõe não só a coexistência de diferentes culturas, mas sobretudo a interação, o diálogo e a construção de relações significativas entre elas.

Por outro lado, procuro aprofundar os meus conhecimentos nesta área, tendo em conta a crescente diversidade cultural presente nas nossas escolas e os desafios, oportunidades e responsabilidades que essa realidade implica.

Considero fundamental compreender melhor como promover práticas educativas mais inclusivas, capazes de valorizar a diversidade e de favorecer o encontro e a aprendizagem entre pessoas de diferentes origens culturais.

 

Pergunta 3: Porque vim por este caminho? Quem me trouxe?

Vim por este caminho porque a realidade multicultural e intercultural faz parte da minha vida, tanto a nível pessoal como profissional. Está presente nas minhas experiências, vivências, nas pessoas com quem me relaciono e, ao nível educacional, nas minhas aulas.

Também me trouxe a procura de novos conhecimentos, a aquisição de estratégias e ferramentas que me permitam compreender melhor esta diversidade e responder de forma mais adequada aos seus desafios e também implementar, desenvolver e adaptar práticas pedagógicas que promovam a inclusão, o diálogo e a valorização das diferentes línguas e culturas presentes na sala de aula.

Tenho consciência que a interculturalidade não se limita ao contexto escolar. É uma realidade que atravessa todos os espaços da sociedade a nível mundial e concretamente no nosso país, e que influencia a forma como convivemos, comunicamos e construímos relações. Por isso, esta formação representa também uma oportunidade de crescimento pessoal, ajudando-me a desenvolver uma maior consciência intercultural e a relacionar-me de forma mais aberta, empática e enriquecedora com os outros.

 

Pergunta 4: Para onde vou?

Vou em direção ao meu crescimento pessoal e profissional, procurando alargar os meus conhecimentos, desenvolver novas competências e adquirir ferramentas que me permitam responder de forma mais consciente e eficaz aos desafios da diversidade cultural.

Mas vou também ao encontro do(s) outro(s) e de mim própria porque a integração e a interculturalidade não são responsabilidades apenas de quem chega, mas de todos, a começar por mim. Não são apenas os imigrantes que têm de se integrar, também nós, enquanto professores e cidadãos, temos de aprender a integrar-nos e interagir numa sociedade cada vez mais plural.

Quero, por isso, continuar a aprender a integrar-me e interagir em contextos cada vez mais culturalmente diversificados, acolhendo novas culturas, perspetivas e formas de estar no mundo, na medida em que a interculturalidade não acontece apenas quando esperamos que os outros se adaptem: ela constrói-se através do diálogo, da interação, da escuta e da disponibilidade para aprender(mos) mutuamente.

A minha meta é assim abraçar a diversidade como uma oportunidade de enriquecimento humano e cultural. Sei que, se eu não estiver aberta ao diálogo, à compreensão, à tolerância e à construção de pontes interculturais, dificilmente poderei promover esses mesmos valores junto dos outros.

Isto porque considero que a integração e a interculturalidade são rotas, viagens e travessias que se traçam com a participação de todos, são navegações partilhadas e mares que se cruzam e se descobrem em conjunto, para que se consiga ver para lá do horizonte.

A integração e a interculturalidade não são portos a que se chega sozinho, mas são rotas e mapas que se traçam e analisam em conjunto e travessias feitas de diálogo, interação, respeito e disponibilidade para aprender com o outro, onde cada pessoa contribui para orientar o barco em direção a um horizonte comum, só possível a partir da construção coletiva do diálogo intercultural.

  

Pergunta 5: O que e/ou quem levarei (sempre) comigo?

Quando me foi colocada a questão sobre o que e/ou quem levaria sempre comigo, o meu primeiro pensamento foi imediato: as minhas filhas, a minha mãe e a minha família. No entanto, enquanto ainda escrevia a minha resposta, a formadora referiu que não poderíamos levar a família ou pessoas que já nos são queridas. Essa observação levou-me a refletir de forma diferente sobre a questão.

Percebi então que aquilo que realmente gostaria de levar comigo não seriam forçosamente pessoas concretas, mas uma forma de estar e de olhar o mundo: uma visão alargada, inclusiva e aberta a novas realidades. Levaria comigo a capacidade de acolher, compreender e valorizar a diferença, procurando remar em direção ao outro e chegar a porto seguro sem deixar ninguém para trás.

Assim, no meu Barco, viajariam pessoas de diferentes nacionalidades, culturas, línguas e histórias de vida. Pessoas diferentes de mim, tal como eu sou diferente delas. Afinal, a interculturalidade constrói-se precisamente nesse encontro entre diferenças, na disponibilidade para dialogar, aprender e crescer em conjunto.

Durante a partilha das respostas, a formadora lançou-me uma nova questão: “E se as suas filhas quisessem ir consigo?”. A minha resposta foi que não as levaria. Não por falta de amor, mas porque acredito que cada pessoa tem o seu próprio rumo a seguir, a sua rota a traçar, ondas a desbravar e os seus mares a desvendar. Tal como eu, também elas terão de enfrentar as suas tempestades, explorar novos horizontes e construir as suas próprias aprendizagens. Desejo que elas sejam capazes de acolher a diversidade, de abraçar outras culturas e de se enriquecerem através do contacto com o(s) outro(s), encontrando o seu próprio lugar no mundo.

 

As intervenções dos colegas também enriqueceram a reflexão. Em particular, chamou-me a atenção a resposta de um formando que afirmou que costuma dizer aos seus alunos: “Somos todos iguais.” Embora compreenda a intenção da mensagem, eu costumo dizer aos meus alunos: “Somos todos diferentes.” Faço-o porque acredito que a diferença não deve ser ignorada ou anulada; pelo contrário, deve ser reconhecida, valorizada e respeitada. Somos diferentes nas nossas origens, experiências, culturas e formas de ver o mundo, mas é precisamente essa diversidade que nos enriquece. E, apesar de todas as diferenças, continuamos unidos por aquilo que nos torna profundamente humanos: somos iguais na nossa dignidade humana e únicos na nossa própria identidade.