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FÓRUM

A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por João Manuel Rua Alves - Número de respostas: 11

Queridos colegas, tenho um colega (professor) que é sempre cortês, generoso no trato, de comunicação aparentemente impecável — e, ainda assim, é impossível construir confiança com ele. No grupo, ninguém realmente se lhe liga e diz-se (perdão por este mexerico) que é “falso como judas”, ainda que eu não lhe conheça essas falsidades…

Rosenberg diz no livro que a CNV não é apenas uma linguagem ou um conjunto de técnicas, é consciência e também intenção — e o que gera confiança não é a delicadeza, é a vulnerabilidade (diz ele). Como diz, no poema A Máscara, quando se levanta enfim a máscara que uma mão delicada segura “com graça”, não há rosto nenhum por trás.

Daí a questão que me assoberba:

Poderá a forma perfeita da CNV servir não para nos ligarmos ao outro, mas para nos protegermos dele?

Quem nunca ofende, mas também nunca se expõe, é mais fácil ou mais difícil de confiar do que quem é abertamente difícil?

E — Virando do avesso — não seremos nós a falhar na CNV ao rotularmos de «frio» alguém que talvez apenas tenha medo?

O Problema é que, mesmo indo ao encontro dele, ele não se “faz parte”. Também é verdade que nunca (que eu saiba) o confrontamos diretamente com isso.

Um dia esse colega, por causa de uma tomada de posição na escola, onde era necessário batermo-nos por uma questão de justiça, colocou-se à parte e disse: «Temos de saber viver». Que vos parece? Em que falho/falhamos?

Em resposta a 'João Manuel Rua Alves'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Ana Mécia Oliveira -
Obrigada por esta reflexão tão profunda.

Penso que tocas numa distinção fundamental que o próprio Marshall Rosenberg procurava fazer: a CNV não é um conjunto de frases "bonitas", mas uma forma de estar em relação.

Por isso, sim, parece-me possível que alguém utilize uma linguagem impecavelmente cortês como forma de proteção. Não necessariamente por manipulação ou falsidade, mas porque a vulnerabilidade implica risco. E nem todas as pessoas se sentem seguras para correr esse risco.

A tua reflexão faz-me lembrar uma ideia importante: a confiança raramente nasce apenas da ausência de conflito. Muitas vezes nasce da experiência de autenticidade. É curioso que, por vezes, confiemos mais numa pessoa que expressa claramente um desacordo do que numa pessoa que permanece sempre irrepreensível, mas emocionalmente inacessível.

Também considero muito pertinente a inversão que propões: quando rotulamos alguém de "frio", "falso" ou "distante", estaremos a observar a pessoa ou a interpretar aquilo que vemos? A CNV convida-nos precisamente a essa humildade de reconhecer que não sabemos o que se passa no interior do outro. Talvez haja medo. Talvez haja prudência. Talvez haja simplesmente uma forma diferente de participar nas relações.

Ao mesmo tempo, a empatia não exige que neguemos a nossa experiência. É possível reconhecer que alguém pode ter as suas razões e, simultaneamente, sentir que a relação não gera proximidade ou confiança.

A frase que partilhas — «Temos de saber viver» — deixa espaço para muitas leituras. Poderá ser conformismo. Poderá ser prudência. Poderá ser uma forma de evitar o conflito. Talvez apenas ele saiba o que estava verdadeiramente por detrás dessas palavras.

Fiquei especialmente tocada pela tua pergunta final: "Em que falho/falhamos?" Talvez a resposta passe menos por descobrir quem está a falhar e mais por reconhecer que a confiança é uma construção relacional. Não depende apenas da abertura de uma das partes. Por vezes aproximamo-nos genuinamente de alguém e, ainda assim, essa pessoa não está disponível — ou não sabe como — para construir o tipo de vínculo que gostaríamos.

Deixo uma questão ao grupo: será que a vulnerabilidade é uma condição para a confiança ou será, ela própria, uma consequência da confiança já existente?
Em resposta a 'Ana Mécia Oliveira'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Ana Mécia Oliveira -
Deixo-vos, ainda, mais uma questão para refletirmos: o que fazer nestas situações?

Essa é, para mim, a pergunta mais difícil e mais prática.

Se olharmos para a situação através da lente da CNV, talvez o primeiro passo seja reconhecer que não temos controlo sobre o grau de abertura ou vulnerabilidade do outro. Podemos criar condições para a ligação, mas não podemos produzi-la unilateralmente.

Numa situação como a que descreves, costuma ajudar-me quando penso em três possibilidades:

1. Estou a observar um comportamento ou estou a interpretar uma intenção?

Posso observar que a pessoa é cordial, evita expor opiniões pessoais, raramente partilha dúvidas ou fragilidades e tende a afastar-se dos conflitos. Isso é diferente de concluir que é "falsa", "calculista" ou "dissimulada". A CNV convida-nos a permanecer o mais possível na observação.

2. O que acontece em mim perante esta distância?

Talvez surjam sentimentos de frustração, desconfiança, tristeza ou confusão. E talvez por detrás deles existam necessidades de autenticidade, pertença, reciprocidade ou colaboração. Às vezes, quando identificamos claramente as nossas necessidades, deixamos de procurar que o outro mude para podermos estar em paz.

3. Estou disposta a verbalizar a minha experiência relacional?

Muitas vezes falamos sobre a pessoa, mas nunca falamos com a pessoa. Poderia ser algo como:

"Tenho reparado que, nas nossas interações, és sempre muito cordial e respeitoso. Ao mesmo tempo, sinto dificuldade em perceber o que pensas ou sentes sobre algumas situações. Isso deixa-me um pouco curiosa e gostava de compreender melhor a tua perspetiva. Faz sentido para ti o que estou a dizer?"

Não como acusação, mas como partilha de uma experiência.

E há ainda uma possibilidade que a CNV também nos convida a considerar: aceitar os limites da relação.

Nem todas as pessoas desejam o mesmo grau de proximidade. Nem todas expressam vulnerabilidade da mesma forma. E nem todas as relações têm de se tornar profundas para serem respeitosas e funcionais.

Por isso, talvez a pergunta não seja apenas "como faço para confiar nesta pessoa?", mas também:

"Que nível de relação é realisticamente possível com esta pessoa, tal como ela é neste momento?"

Às vezes, a resposta mais empática não é insistir para que o outro se revele, mas aceitar que a sua forma de se proteger pode ser precisamente aquilo de que necessita para se sentir seguro.

E, curiosamente, é muitas vezes quando deixamos de exigir vulnerabilidade ao outro que este encontra espaço para a oferecer. Não porque a pedimos, mas porque deixou de ser uma condição para a nossa aceitação.
Em resposta a 'Ana Mécia Oliveira'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por João Manuel Rua Alves -
Bom dia a todos:

Obrigado pelos desafios! [mas que grande embate, santo Deus.]

A sua pergunta final ficou-me a ressoar. Atrevo-me a pensar que talvez não seja nem uma coisa, nem outra: enquanto a esperar do lado dele, continuo a torná-la condicional. Rosenberg lembra-nos que a entrega nasce do coração, não de um cálculo de reciprocidade. A vulnerabilidade, por mais que seja difícil de ver, não é condição nem consequência, é iniciativa. Alguém tem de baixar a máscara primeiro e sem garantias.

E aqui há uma derrota a assumir — e, no meu caso, com um peso a mais: sou professor de Moral e dou comigo a aprender, com um método laico, aquilo que devia ser antes de tudo o meu Evangelho: não julgar, ver o rosto do irmão, dar sem fazer contas.
Vim apontar a máscara do colega e foi a minha que a CNV me pôs diante dos olhos.
Cá está o argueiro no olho do outro, a trave no meu.

Talvez sejam duas máscaras frente a frente, cada uma a concluir que do outro lado «não há rosto nenhum»?
Resta-me a pergunta que me incomoda: vencerei este muro?

Mas talvez “vencer” seja, já, o verbo errado — o Evangelho que vivo não conquista muros, bate à porta e espera.
Por isso atrevo-me a devolver a pergunta que deixou, virada do avesso: não “como faço para confiar nele?”, mas assim:

Haverá muros que só caem quando deixamos de tentar vencê-los?
Em resposta a 'João Manuel Rua Alves'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Ana Mécia Oliveira -
Acho que a sua resposta é muito bonita porque faz uma coisa rara: não abandona a questão inicial, mas deixa-se transformar por ela.

No entanto, atrevo-me a introduzir uma pequena inquietação.

Quando escreves:

"A vulnerabilidade não é condição nem consequência, é iniciativa. Alguém tem de baixar a máscara primeiro e sem garantias."

Concordo e, ao mesmo tempo, pergunto-me se não existe também um risco subtil aí: o de transformar a vulnerabilidade numa espécie de missão pessoal.

Porque há uma diferença entre baixar a máscara e assumir a responsabilidade exclusiva pela relação.
A CNV convida-nos a oferecer presença, não a garantir encontro.

O Evangelho diz-nos para bater à porta; não nos promete que a porta se abrirá. Fiquei emocionada com a tua partilha:

"Vim apontar a máscara do colega e foi a minha que a CNV me pôs diante dos olhos."

Há aí uma humildade profunda e bonita (preocupo-me com o facto de ela poder transformar-se em autocensura).
Pois talvez a tua perceção inicial também contivesse uma verdade (aceitar e refletir no que essa interação mexe lá dentro. que nome tem o que é tão importante para ti, em termos de valores, que te faz sentir assim.

Talvez ele seja, de facto, alguém que se protege muito. Talvez o grupo sinta uma distância real. Talvez a frase "Temos de saber viver" tenha sido uma retirada perante um conflito que exigia exposição.

Reconhecer isto não é julgar. É observar.

A CNV não nos pede que neguemos aquilo que vemos; pede-nos apenas que não confundamos o que vemos com a totalidade da pessoa.

Por isso, quando perguntas:

"Haverá muros que só caem quando deixamos de tentar vencê-los?"

A minha resposta seria: talvez.

Mas também haverá muros que não caem e isso não significa que tenhamos falhado.

Há uma imagem do próprio Rosenberg que me ocorre. Ele falava frequentemente da diferença entre criar as condições para que uma flor cresça e obrigá-la a crescer. Uma borboleta vem para jardins floridos e morre quando encurralada. Podemos preparar o solo, regar, oferecer luz. Não podemos puxar pela planta ou na borboleta para acelerar o processo.

Talvez com este colega aconteça algo semelhante.
Podes aproximar-te. Podes mostrar-lhe mais de ti.

Podes dizer-lhe o efeito que a sua reserva produz em ti.
Podes convidá-lo.

Mas não podes fazer por ele a travessia.

E talvez a paz esteja precisamente aí: perceber que o contrário de "vencer o muro" não é desistir da relação.

É continuar disponível sem transformar a abertura do outro numa tarefa tua.

No fundo, a pergunta talvez já não seja:

"Como faço para confiar nele?"

Nem:

"Como faço para que ele confie em mim?"

Mas algo mais simples e mais difícil:

"Consigo permanecer disponível para o encontro, mesmo sem garantias de que ele aconteça?"

Porque, por vezes, a máscara não cai quando alguém a arranca.

Cai quando deixa de ser necessária.
Em resposta a 'Ana Mécia Oliveira'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Joana Isabel Vigário Soares -
Boa tarde, colegas

Ao ler os vários comentários, fiquei com a sensação de que este colega acabou por funcionar como um espelho, levando-nos a refletir não apenas sobre ele, mas também sobre a forma como olhamos para os outros e construímos relações de confiança.
Daquilo que tenho vindo a aprender sobre a CNV, parece-me importante distinguir aquilo que observamos das interpretações que fazemos. Quando alguém é mais reservado ou distante, é fácil atribuir-lhe intenções ou características que talvez não correspondam à realidade. A verdade é que nem sempre sabemos o que está por detrás dos comportamentos das pessoas.
A reflexão sobre a vulnerabilidade também me fez pensar. Sempre associei a confiança à abertura e à partilha, mas esta discussão ajudou-me a perceber que cada pessoa tem o seu ritmo e a sua forma de se relacionar. Talvez algumas pessoas precisem de mais tempo ou de mais segurança para se mostrarem aos outros.
Gostei particularmente da ideia de que podemos criar condições para o encontro, mas não o podemos forçar. Podemos mostrar disponibilidade, escutar, tentar compreender e manter a porta aberta, mas não podemos decidir pelo outro. Aceitar isso nem sempre é fácil, mas talvez faça parte do respeito pela liberdade e pelo caminho de cada pessoa.
Para mim, uma das aprendizagens mais importantes desta discussão foi perceber que a CNV não nos convida apenas a compreender os outros, mas também a olhar para as nossas próprias expectativas, necessidades e julgamentos. E talvez seja aí que começa uma verdadeira mudança na forma como nos relacionamos.
Em resposta a 'Joana Isabel Vigário Soares'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Ana Mécia Oliveira -
Olá,

Gostei muito da forma como deslocou o foco da análise do comportamento do colega para a reflexão sobre o nosso próprio olhar. Essa mudança é, muitas vezes, um dos movimentos mais desafiantes da CNV.

Destaco particularmente a distinção que faz entre observação e interpretação. Na prática, nem sempre é fácil permanecermos junto do que observamos. Perante comportamentos que nos deixam desconfortáveis ou confusos, tendemos naturalmente a preencher os espaços em branco com explicações, intenções ou características atribuídas à outra pessoa. É um processo muito humano.

A sua reflexão leva-nos também a uma questão interessante: será que a confiança depende apenas daquilo que o outro nos mostra ou também da forma como escolhemos relacionar-nos com aquilo que ainda não conhecemos dele?

A CNV não nos convida a ignorar o impacto que os comportamentos dos outros têm em nós, mas convida-nos a manter alguma curiosidade sobre aquilo que pode estar para além do que vemos. Nem sempre chegaremos a conhecer as razões do outro, mas podemos escolher entre nos fecharmos na interpretação ou permanecermos disponíveis para a descoberta.

Fica-me ainda uma pergunta para continuarmos a refletir: como encontrar o equilíbrio entre respeitar o ritmo e os limites de cada pessoa e, ao mesmo tempo, expressar autenticamente a nossa necessidade de proximidade, clareza ou confiança na relação?

Obrigada pela sua partilha, que trouxe profundidade e equilíbrio a esta discussão.
Em resposta a 'Ana Mécia Oliveira'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Elsa Cristina de Sousa Morais -
Olá! Estive a ler as vossas respostas e achei mesmo interessantes! A vossa reflexão fez-me pensar na diferença entre comunicação e relação. Muitas vezes associamos confiança à forma como alguém comunica, mas talvez ela dependa mais daquilo que sentimos que conhecemos da pessoa. Alguém pode ser educado, respeitador e cuidadoso nas palavras e, ainda assim, permanecer inacessível do ponto de vista emocional.
Ao ler os vossos textos, perguntei-me sobre se a vulnerabilidade é uma condição necessária para a confiança ou apenas um dos caminhos possíveis para a construir. Nem todas as pessoas se expõem da mesma forma. Talvez haja pessoas cuja necessidade de proteção ou segurança seja tão forte que a cordialidade funcione como uma espécie de fronteira. O que vos parece?
Até que ponto conseguimos acolher formas de estar diferentes das nossas sem as interpretar imediatamente como distância ou falta de autenticidade? sorriso
Em resposta a 'Elsa Cristina de Sousa Morais'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Susana Isabel Henriques Romão Mateus -
Boa tarde, Colegas.
Deixo uma pequena partilha.
Ao ler o desafio inicial do colega João fui transportada, de imediato, para um tempo remoto, em que me cruzei com uma professora "novata", de poucas palavras e distante do grupo. Era vista como uma pessoa antipática e anti-social. Primeiros julgamentos, sem o conhecimento de causa. Ao longo do ano letivo e, com o trabalho colaborativo, foi crescendo a disponibilidade de ambas as partes em compreender o outro. E o muro antes inquebrável, caiu. Este muro que fora erguido, não era mais do que uma forma de proteção pessoal, dada a insegurança , o medo aterrorizador de errar e a ansiedade gerada por estes sentimentos. Foi uma vivência, nem sempre fácil, pois é difícil distanciarmo-nos das primeiras interpretações e construir uma relação de confiança no outro. Mas extremamente gratificante.
Em resposta a 'Ana Mécia Oliveira'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Maria de Lurdes Alves da Silva -
Olá,
Para mim, a resposta imediata é que a vulnerabilidade é ambas as coisas: simultaneamente a condição inicial para que a confiança se desenvolva e a consequência natural de uma confiança já consolidada.
Por um lado, para confiar em alguém é necessário assumir algum risco, mostrando algo de nós próprios, pedindo ajuda, admitindo um erro ou revelando sentimentos, sem qualquer garantia de que a outra pessoa responderá de forma positiva. Nesse sentido, é preciso sermos vulneráveis primeiro, pois só assim damos à outra pessoa a oportunidade de demonstrar que é digna da nossa confiança.
Por outro lado, quando a confiança já está estabelecida, tendemos a sentir-nos mais seguros para nos expormos ainda mais. Assim, quanto maior é a confiança, maior é também a disponibilidade para sermos vulneráveis, porque existe a expectativa de que a outra pessoa não nos irá julgar, trair ou magoar.
Por isso, considero que a vulnerabilidade desempenha um duplo papel: é, ao mesmo tempo, o ponto de partida para a construção da confiança e um reflexo da confiança que se fortaleceu ao longo da relação.
Em resposta a 'João Manuel Rua Alves'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Maria de Lurdes Alves da Silva -
Caro colega,

Atendendo às questões que nos colocas, considero que a Comunicação Não Violenta (CNV), quando utilizada como um escudo para evitar a exposição emocional, pode acabar por nos proteger do outro, em vez de promover uma ligação autêntica. Nesses casos, a comunicação pode ser irrepreensível na forma, mas distante na relação.

Quanto à confiança, parece-me que quem nunca ofende, mas também nunca se expõe, pode revelar-se mais difícil de confiar do que alguém que, embora tenha um temperamento mais difícil, se mostra genuíno e coerente. A ausência de vulnerabilidade dificulta a construção da proximidade e da autenticidade, enquanto a honestidade, aliada ao respeito, tende a fortalecer os laços de confiança.

Assim, respondendo à questão "Pode a delicadeza como máscara fazer com que a CNV impecável se torne o seu próprio contrário?", diria que sim. Quando a CNV é reduzida a uma técnica para parecer sempre delicado ou para evitar o conflito, corre o risco de se transformar numa máscara. Nessa circunstância, deixa de favorecer a autenticidade e a conexão genuína, passando a ocultar sentimentos, necessidades ou desacordos. A verdadeira Comunicação Não Violenta exige mais do que uma linguagem cuidada: requer honestidade, vulnerabilidade e empatia, pois é essa autenticidade que permite construir relações de confiança.
Em resposta a 'Maria de Lurdes Alves da Silva'

Re: A delicadeza como máscara — pode a CNV impecável tornar-se o seu próprio contrário?

por Susana Maria de Sousa Torres -
Boa noite!
Fui das ultimas a ler com mais atenção os vossos comentários.

Sobre a frase "há que saber viver", eu penso que este colega, acima de tudo, "talvez apenas só ele mesmo saiba o que estava verdadeiramente por detrás dessas palavras", No entanto revela-me algum ato de pensamento interno que fez em relação ao seu meio e decidiu internamente que para conseguir lidar com as situações que se emergem diáriamente teria de atuar indiscriminadamente dessa forma. Soa-me que talvez já se tenha sentido traído e desiludido de tal forma que a sua confiança ao ponto de perceber que o local onde está não deverá ser o mais adequado para si para desenvolver uma boa relação de confiança.

Eu sou muito do tipo de pessoa que confiar é “quase” sinónimo de “ter abertura para”, mas também reconheço que cada um tem o seu tempo e o seu jeito de se dar a conhecer.
Percebi que o mais importante de tudo aquilo que observamos são as nossas ações e devemos essencialmente trabalhar para deixar a porta encostada e acolher, sem pressionar. Não controlamos o passo do outro, e aceitar isso custa, mas é o maior sinal de respeito pelo caminho de cada um.
No fim das contas, a CNV ensinou-me que o trabalho começa em nós. Antes de querer compreender o outro, preciso de olhar para as minhas próprias cobranças e expectativas.
O verdadeiro clique nas relações acontece aí."