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Ser professora na Inter e Multiculturalidade

Ser professora na Inter e Multiculturalidade

por Maria Ângela Magalhães Ribeiro - Número de respostas: 0

No primeiro ano em que trabalhei com professora, fui colocada na escola secundária Braamcamp Freire, situada na periferia de Lisboa. Foi nesse contexto que tive um contacto mais próximo com a diversidade cultural e que tomei maior consciência da importância da inter e multiculturalidade na educação. 

A comunidade escolar era bastante diversificada, integrando alunos de diferentes nacionalidades e origens culturais. Entre eles, encontravam-se muitos alunos provenientes dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP), nomeadamente de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Uma realidade que me marcou particularmente foi perceber que alguns destes alunos se encontravam temporariamente em Portugal a viver com tios ou outros familiares, muitas vezes porque tinham vindo realizar tratamentos ou intervenções médicas que não estavam  disponíveis ou eram mais difíceis de concretizar nos seus países de origem. Esta situação implicava desafios acrescidos ao nível da adaptação escolar, emocional e social, uma vez que estavam afastados dos pais e do seu contexto habitual de vida. 

Lembro-me que também havia um número significativo de alunos brasileiros. Nas conversas informais e em contexto de sala de aula, muitos manifestavam dificuldades de adaptação relacionadas com o clima, referindo sentir falta das temperaturas mais elevadas do Brasil. Além disso, alguns consideravam que os programas curriculares portugueses eram mais exigentes e complexos do que aqueles que estavam habituados, o que gerava alguma ansiedade e insegurança relativamente ao seu desempenho académico. 

Enquanto professora de Psicologia no 12.ºano de escolaridade, uma das temáticas abordadas no programa é a influência da cultura no comportamento humano. Aproveitando a riqueza cultural existente na turma, desenvolvi uma atividade em que os alunos foram convidados a apresentar um trabalho sobre as tradições, costumes e valores dos seus países de origem e a refletir sobre a forma como esses elementos influenciam os comportamentos, as relações sociais e a construção da identidade pessoal. Esta atividade revelou-se extremamente enriquecedora. Os alunos puderam partilhar aspetos da sua cultura, como festividades, práticas religiosas, hábitos alimentares, formas de organização familiar e valores sociais. Para muitos, foi uma oportunidade de valorizarem as suas origens e de se sentirem reconhecidos pela comunidade escolar. Simultaneamente, os restantes colegas tiveram a possibilidade de conhecer realidades diferentes da sua, desenvolvendo uma maior compreensão e respeito pela diversidade.

Esta experiência permitiu-me identificar vários desafios associados à diversidade cultural em contexto educativo. Em primeiro lugar, as dificuldades de adaptação dos alunos migrantes nem sempre estão relacionadas apenas com a aprendizagem. Muitas vezes envolvem questões emocionais, como a saudade da família, o sentimento de desenraizamento ou a necessidade de integração num novo contexto social e cultural. Por outro lado, podem existir diferenças ao nível das experiências educativas anteriores, dos métodos de ensino e das expectativas académicas, o que exige dos professores uma maior capacidade de adaptação pedagógica. No caso dos alunos brasileiros, por exemplo, era frequente surgirem comparações entre os sistemas educativos dos dois países, sobretudo no que diz respeito ao grau de exigência dos conteúdos lecionados. 

Outro desafio importante prende-se com a necessidade de combater estereótipos e preconceitos que, mesmo de forma subtil, podem surgir entre os alunos. Nesse sentido, considero que a escola tem um papel fundamental na promoção de ambientes inclusivos onde todas as culturas sejam valorizadas e respeitadas. 

Contudo, apesar dos desafios identificados, esta experiência permitiu-me constatar os inúmeros benefícios da diversidade cultural para a aprendizagem. Percebi que o contacto entre alunos de diferentes origens favorece o desenvolvimento de empatia, da tolerância e da capacidade de compreender diferentes perspetivas sobre a realidade. 

Reconheci que a atividade realizada na disciplina de Psicologia demonstrou que a diversidade cultural pode constituir um recurso pedagógico valioso. Ao partilharem as suas experiências e tradições, os alunos enriqueceram as aprendizagens de toda a turma e contribuíram para a construção de um ambiente mais colaborativo e inclusivo. 

Além disso, a valorização das identidades culturais dos alunos fortalece o seu sentimento de pertença à escola e promove a autoestima, fatores que influenciam positivamente o sucesso escolar. A inter e multiculturalidade não devem, por isso, serem vistas apenas como um desafio a gerir , mas sobretudo como uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e social para todos os intervenientes no processo educativo.