DIA 4 — DIALOGAR
Se na etapa anterior aprendi a olhar para quem chega e para as histórias que traz consigo, nesta sessão percebi que olhar não chega: é preciso dialogar.
Começámos por conhecer os conceitos de assimilacionismo, multiculturalismo e interculturalismo, acompanhando também a sua evolução numa perspetiva histórica. Refletimos sobre a educação intercultural, sobre diferentes formas de a concretizar e sobre a sua integração no currículo.
Falámos ainda das diferentes intenções perante a diversidade: excluir, incluir e, entre estas possibilidades, conhecemos o conceito de pluralismo cultural, associado a uma ética de respeito pela diversidade.
Duas frases da formadora ficaram particularmente comigo:
«Eu aprendo a partir de ti: deixa-me aprender contigo.»
e
«O pluralismo exige compromisso pessoal, mas também um investimento conjunto.»
A primeira fez-me pensar na interculturalidade não como um movimento de uma pessoa em direção a outra, mas como uma possibilidade de aprendizagem mútua. Não se trata apenas de eu conhecer o outro: também posso aprender com ele, com a sua história, a sua cultura, a sua língua e a sua forma de olhar o mundo.
A segunda recordou-me que o respeito pela diversidade não pode ficar apenas pelas nossas convicções individuais. Exige atitudes concretas e, sobretudo, um compromissocoletivo.
Do acolhimento à realidade
Voltámos depois a Portugal através do vídeo «Portugal é um país racista?», no qual pessoas de diferentes origens e comunidades — Brasil, Ucrânia, comunidade cigana, Cabo Verde, Angola e China — partilharam experiências de discriminação vividas no nosso país. Foram relatadas situações que, por vezes, se escondem atrás de um sorriso ou de uma suposta brincadeira: piadas racistas que são ditas como se o facto de serem acompanhadas por um sorriso lhes retirasse a gravidade.
Os testemunhos mostraram que existem, efetivamente, situações de racismo e discriminação em Portugal. Mas também foi salientado que esses comportamentos não devem ser generalizados a toda a sociedade portuguesa.
Este vídeo levou-me inevitavelmente de volta ao que tinha visto na sessão anterior, em «Portugal é que me escolheu». Num vídeo, pessoas migrantes e refugiadas partilhavam a procura de segurança, liberdade, trabalho, melhores condições de vida e, sobretudo, o desejo de proporcionar bem-estar às suas famílias. No outro, pessoas que vivem em Portugal relatavam situações em que se sentiram discriminadas ou diminuídas por causa da sua origem ou pertença cultural.
Para mim, estes dois vídeos não se contradizem. Podem coexistir. Portugal pode ser um país onde muitas pessoas encontram acolhimento, liberdade e oportunidades e, simultaneamente, podem existir pessoas que reproduzem comportamentos racistas ou discriminatórios.
A minha leitura pessoal é que não considero Portugal um país racista, embora reconheça que existem situações de racismo e discriminação que não podem ser ignoradas nem desvalorizadas. Vejo-as como problemas que devem ser reconhecidos e combatidos, sem que isso implique generalizar comportamentos individuais a toda uma sociedade. Talvez a comparação com outras realidades ajude a perceber o que quero dizer: existem casos de maus-tratos a animais, de violência doméstica ou de falta de civismo no desporto, na estrada ou noutros espaços da vida em sociedade. O facto de esses comportamentos existirem não significa que possamos caracterizar toda a sociedade a partir deles. Reconhecer um problema é diferente de generalizá-lo.
Da reflexão à intervenção
Nesta sessão conhecemos também o «Guia para a Prevenção e Combate à Discriminação nas Escolas», um recurso que considerei particularmente pertinente. Mais do que refletir sobre a interculturalidade e a discriminação, este tipo de documento ajuda a pensar no que podemos fazer concretamente, enquanto escola e enquanto docentes.
E foi precisamente nesse sentido que terminou a sessão.
Divididos em salas, recebemos o desafio de criar, em grupo, uma proposta de projeto/atividade interdisciplinar de promoção dos Direitos Humanos e da Interculturalidade. Foi esta a proposta construída pelo grupo da Sala 2 (Arlindo Abreu, Carla Leite, Cristina Pereira, Elisabete Ballhau e Mary Sánchez) e apresentada na sessão 4, que aqui se reproduz.
Veste e Escuta os Direitos Humanos
Proposta de atividade interdisciplinar para o Dia Internacional dos Direitos Humanos – 10 de dezembro
Destinatários: Toda a comunidade educativa, incluindo alunos, docentes, não docentes e encarregados de educação.
Disciplinas envolvidas: Área de Integração, Economia, Português, Inglês, Espanhol e Educação Musical.
Enquadramento e ideia central
No âmbito da celebração do Dia Internacional dos Direitos Humanos, propõe-se a realização de uma atividade interdisciplinar que envolva toda a comunidade educativa e que permita aos alunos conhecer, refletir e assumir os Direitos Humanos como valores que dizem respeito a todos.
A proposta, intitulada «Veste e Escuta os Direitos Humanos», parte de uma ideia simples: dar corpo e voz aos Direitos Humanos através da palavra, da imagem, da música e da diversidade cultural presente na comunidade educativa.
Cada aluno escolherá um direito consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos que considere particularmente significativo e que gostaria de transformar num compromisso pessoal. Esse compromisso será posteriormente trabalhado através de diferentes linguagens e áreas disciplinares, culminando numa apresentação coletiva.
Desenvolvimento interdisciplinar
Área de Integração – Conhecer, refletir e assumir
No contexto do Tema-Problema 1.2 Pessoa e Cultura, os alunos realizarão uma pesquisa sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Cada aluno selecionará um dos direitos que considere mais significativo e refletirá sobre a sua importância, procurando transformá-lo num compromisso pessoal, através de uma frase curta, clara e fundamentada.
Economia – Planear e orçamentar
A partir da definição do projeto, os alunos identificarão os materiais necessários à sua concretização e analisarão os respetivos preços, nomeadamente das T-shirts brancas, dos marcadores ou tintas para tecido e de outros materiais necessários à sua confeção e decoração. Com base nesse trabalho, elaborarão um pequeno orçamento do projeto.
Português – Dar forma às palavras
Os textos produzidos pelos alunos serão revistos e aperfeiçoados em Português, procurando garantir clareza, correção linguística e força comunicativa.
Cada compromisso será posteriormente escrito e ilustrado na parte da frente de uma T-shirt branca, transformando a peça de vestuário num suporte de expressão e de afirmação dos Direitos Humanos.
Inglês e Espanhol – Dar voz à diversidade linguística e cultural
Os compromissos serão traduzidos para Inglês e Espanhol e integrados na parte de trás das T-shirts, acompanhados de elementos gráficos que expressem referências culturais e a diversidade das origens dos alunos.
Educação Musical – Transformar a palavra em som
Os compromissos selecionados serão transformados em pequenas criações musicais pelos alunos, recorrendo a uma ferramenta digital de criação/composição musical.
As propostas musicais poderão integrar referências, sonoridades ou elementos associados às diferentes experiências e referências culturais dos alunos.
Apresentação final – O desfile
Como ponto alto do projeto, será realizado um desfile dos Direitos Humanos, no dia 10 de dezembro, aberto à comunidade educativa.
Cada aluno apresentará a sua T-shirt, dando visibilidade ao direito que escolheu e ao compromisso que assumiu. O desfile será acompanhado pelas respetivas criações musicais, estabelecendo uma relação entre palavra, imagem, corpo, música e diversidade cultural.
Desta forma, cada T-shirt tornar-se-á simultaneamente uma mensagem, um compromisso e uma expressão de identidade.
Contextualização
Ao converter em texto a proposta apresentada na sessão, procedeu-se à sua revisão e reformulação, procurando clarificar e enriquecer alguns dos aspetos inicialmente definidos.
Nesta revisão, foram integrados dois elementos que não tinham ficado explicitados na primeira proposta: a designação da atividade: «Veste e Escuta os Direitos Humanos» e a sugestão da formadora relativamente à participação da disciplina de Economia.
Foi considerado que estas alterações não modificam a essência da proposta construída pelo grupo, mas contribuem para a sua concretização e enriquecem a dimensão interdisciplinar da atividade. Relativamente a outros aspetos, nomeadamente o local e a duração da atividade, entendeu-se não ser prioritária a sua decisão.
O que levo desta etapa?
Esta sessão deixou-me uma ideia particularmente clara: a interculturalidade não se constrói apenas com boas intenções. Constrói-se através de conhecimento, respeito, compromisso e diálogo.
E talvez seja significativo que a sessão tenha terminado precisamente com um trabalho que nos obrigou a dialogar entre disciplinas, ideias e pessoas diferentes. A frase «Eu aprendo a partir de ti: deixa-me aprender contigo» ganhou, para mim, um significado especial.
Afinal, esta viagem também é isso: aprender com os outros para podermos, juntos, construir novos caminhos.