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"Ser Professor/a na Inter e na Multiculturalidade..."

Ser professora na Inter e na Multiculturalidade

Ser professora na Inter e na Multiculturalidade

por Rosária Maria Viegas Neves Pacheco - Número de respostas: 0

Continuação do meu Diário de Bordo

Relato do 2º dia de navegação

Foi preciso algum tempo para que todos os passageiros da caravela pudessem ter oportunidade de partilhar as respostas às perguntas que a nossa capitã nos entregou no primeiro dia. Dei-me conta que éramos muitos. Também percebi que todos éramos sensíveis à realidade escolar atual que nos coloca o desafio de promover um ambiente integrador e acolhedor nas nossas salas de aula para que todos os nossos alunos possam se sentir felizes e motivados para adquirir novas aprendizagens, particularmente os nossos alunos estrangeiros. São eles que nos fizeram embarcar nesta viagem para sermos marinheiros dispostos a aprender novas técnicas de navegação para responder da melhor maneira às necessidades desses alunos. Alunos que estão a chegar a um país, a uma escola, a uma realidade de vida completamente desconhecidos. Alunos que vivem, muitas vezes, a dura realidade de deixar os restantes membros da família (avós, tios, primos, irmãos, pai ou mãe), colegas e amigos para trás.

Depois de nos termos conhecido um pouco melhor, era chegada a hora de nos concentrarmos nas novas tarefas que tínhamos de fazer a bordo da nossa caravela.

Neste dia, foi-nos dados a tarefa de descrever uma situação que tínhamos vivido com os nossos alunos imigrantes/migrantes. Uma situação que evidenciasse algum impacto ao nível da Interculturalidade na Educação. Tendo vivido algumas ao longo da minha carreira, uma vez que em todos estes anos sempre tive alunos oriúndos de vários países, decidi partilhar aquela que me marcou mais, não apenas por ter sido a mais recente, mas porque me fez tomar consciência da facilidade com que nós criamos estéreotipos sociais que muitas vezes nos levam a tirar conclusões erradas. Aliás, esta situação foi a principal razão que me fez escolhar este curso de formação. 

A situação tem como protagonistas dois irmãos acabados de chegar do Paquistão, o meu Abdullah e o meu Muhammad. Dois meninos que tinham integrado o 1º ano de uma das escolas do meu agrupamento. Tinha terminado a primeira aula de EMRC do ano letivo com os alunos do 3º e 4º anos e tinha chegado o momento de ir chamar os alunos do 1º e 2º ano para a segunda e última aula dessa tarde. Com a pauta dos alunos na mão comecei a chamar pelos seus nomes. Devo contextualizar o seguinte: na minha disciplina (EMRC) é comum acontecerem enganos em todos os inícios do ano escolar. Ou são alunos que se inscreveram que não constam da lista de alunos, ou alunos que não se inscreveram e aparecem nessas mesmas listas. Motivo esse que fez com que eu não estranhasse a situação de ter estes nomes na lista de presença, porque pensei que quando os chamasse, junto da auxiliar de educação, esta me informasse que já tinham saído da escola. Mas não. Os meninos estavam na escola, ouviram o seu nome e em pânico deram a mão um ao outro e começaram a dirigir-se depressa para o outro lado do recreio. A nossa auxiliar de educação olhou para mim e disse para não estranhar a situação, pois tinha sido esta a sua reação com todos os adultos da escola, incluíndo a professora titular. A grande questão que se me colocou no momento foi se teriam mesmo a disciplina, não seriam eles de outra religião? Enquanto não obtivesse resposta à minha dúvida, combinei com a senhora funcionária de ir ter com os pequenitos e levá-los para a sala de aula com calma e de ela perguntar aos pais se realmente tinham inscrito os seus filhos na disciplina, assim que chegassem à escola. E assim foi. Passados alguns minutos, eis que os dois me chegam à aula com a lágrima no olho e assustados... Pensei para mim "Mais um lugar estranho, com mais um professor diferente, no meio de colegas de outras turmas que não conhecem de lado nenhum..." Foi todo um ambiente constrangedor para uma aula de apresentação que deve ser de alegria e de acolhimento. Fiz o meu melhor, acolhi todos da melhor maneira e dediquei uns minutos a falar em inglês com os irmãos. Senti, nessa aula, que a única coisa que os fez sentirem-se mais calmos foi a nossa canção da "Moral" com gestos que coloca todos os meus pequenitos numa euforia. Nesse momento, sorriram ao olhar para os colegas da turma a cantarem felizes. 

Saí daquela aula com aqueles dois meninos no coração. A semana passou a correr e quando dei por mim estava a caminho da 2º aula com aquela turma. Chegada a hora da chamada, a mesma reação... Natural, passada uma semana eles já não se lembravam de mim no meio da confusão que deveria estar a sua experiência neste novo mundo. A senhora funcionária, desta vez, disse-me que eu tinha de ser firme, pois só assim é que estavam a conseguir lidar com eles. Olhei para ela, depois para os pequenos lá no outro lado do recreio e disse em voz alta, com o coração nas mãos "Hey you, Abdulllah, Muhammad, come here! RIGHT NOW!" E foi automático. Os dois nem hesitaram. Vieram logo colocar-se na fila de alunos para virem para a aula. Era a nossa segunda aula. Depois dos primeiros minutos de acolhimento e explicando aos outros alunos que tínhamos de ajudar estes nossos dois colegas para que eles se sentissem bem na escola e nas nossas aulas de EMRC, pedi a sua compreensão para me darem um tempinho para falar com eles. E assim foi. E continuou a ser nas semanas seguintes. Com a minha paciência, comecei a falar com eles em inglês, a pedir-lhes tarefas fáceis, a terminar a aula com a nossa canção e a puxar pela sua participação, procurando conquistar a sua confiança em cada momento. Na terceira semana de aulas, já não foi preciso chamá-los. Foram os primeiros a chegar à chamada e, desta vez, com um grande abraço... Na semana seguinte, falando com a professora titular, fiquei a saber que a sua presença na minha aula não era engano. Os pais eram cristãos e queriam mesmo que eles estivessem matriculados na disciplina. Nesse momento, fiquei triste comigo mesma, pois através dos nomes deles eu tinha feito um julgamento errado. E fiquei com a convicção que não quero repetir o mesmo erro, nunca mais.

Durante todos os meus anos na carreira, sempre tive alunos estrangeiros ou filhos de imigrantes. Sempre. Porque é que o facto de ter dois alunos com nomes de origem muçulmana me fez duvidar da sua presença na EMRC? 

Esta minha questão fez-me pensar ainda mais seriamente para a realidade atual das nossas escolas. Não podemos ignorar esta realidade social. As emigrações, as imigrações e migrações sempre existiram e sempre existirão. Com mais ou menos intensidade, elas são um facto que remonta desde a origem da Humanidade. Não dá para ignorar. Resta-nos, sim, decidir como lhes dar resposta no contexto escolar enquanto docentes. Devemos olhar para o Outro que nos chega de fora com um olhar de acolhimento e respeito, ou olhamos para o Outro que nos chega de fora como alguém a combater porque é diferente de nós?

Será que eles têm de passar uma borracha na sua identidade cultural, religiosa, esquecendo toda a sua vida passada e origens ou seremos nós, nas nossas escolas que temos de flexibilizar os documentos que nos regem, tais como o Projeto Educativo e o Regulamento Interno? Não esquecendo que esses documentos têm que se reger pela nossa Constituição e pela Declaração dos Direitos Humanos.

Termino estas linhas do meu Diário de Bordo com a convição de que para chegarmos a um bom porto, na matéria da Inter e da Multiculturalidade, ainda temos de atravessar muitas marés de mudança... mesmo muitas...

                                  

                                                               Aos vinte e um dias do mês de julho de 2026

                                                                                   Rosária Pacheco